Eu era uma folha

Canção | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 18 de Fevereiro de 2026 ás 14h 07min

Eu sou a folha seca 

que o vento das alturas beijou 

e matou. 

 

Um toque frio 

no azul vasto 

onde a vida era verde 

e a seiva pulsava forte. 

 

Lembro-me do sol de agosto 

a absorver a luz 

em minhas veias finas 

um cálice aberto 

para o dia longo. 

 

A árvore, minha mãe, 

me segurava firme 

contra a chuva repentina 

a promessa de mais verão. 

 

Mas o alto tem seus caprichos, 

seus sussurros cortantes. 

Veio o sopro gelado 

não um carinho, mas um anúncio. 

 

O beijo do vento das alturas 

não foi de amor, 

foi de despedida forçada. 

Arrancou-me da força 

do galho que me nutria. 

 

E a queda, 

uma dança breve, desesperada, 

girando no nada aberto 

entre o céu que me negou abrigo 

e a terra que me espera crua. 

 

Não há mais a cor vibrante, 

apenas o ocre cansado, 

o marrom da rendição lenta. 

Meu corpo frágil 

rasga-se ao menor roçar. 

 

Hoje, 

sou a mancha no caminho de terra, 

esmagada sob passos apressados 

que não notam minha história. 

 

Eu sou um triste outono, 

a matéria que se desfaz, 

o ciclo concluído sem glória. 

Um murmúrio esquecido 

na sinfonia da mudança. 

 

A umidade da noite me aperta, 

prometendo o pó, o retorno à raiz. 

Mas antes, 

este peso silencioso, 

esta quietude ensurdecedora. 

 

Eu sou a folha que foi, 

e o vento que levou, 

e o outono que sou agora, 

esperando apenas ser varrida.

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