Eu não fui embora

Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 12 de Fevereiro de 2026 ás 07h 29min

Eu não fui embora, meu bem. 

A distância que vês 

é apenas o reflexo 

de um novo ângulo. 

 

Meus pés ainda sentem 

o calor daquele chão 

que um dia chamamos nosso. 

Mas o caminho mudou de cor. 

 

Eu não cortei a linha, 

aquela fina, quase invisível, 

que nos prendia ao mesmo ponto. 

Eu só a estiquei, gentilmente. 

 

Como um arco que se prepara 

para lançar uma flecha longe, 

mas com a certeza do retorno. 

O voo é necessário para ver o horizonte inteiro. 

 

Eu atravessei a ponte. 

Não a ponte de madeira velha 

que rangia sob o peso das dúvidas antigas. 

Esta é de luz, de ar que respira outro nome. 

 

Sinto o murmúrio das águas sob os pilares, 

as mesmas águas que sempre conhecemos, 

mas agora elas correm em direção a um mar diferente. 

Um mar que eu precisava conhecer para voltar completa. 

 

O fio não foi cortado. 

Ele apenas se tornou mais forte, 

mais resistente à tensão da ausência. 

Ele vibra agora com a frequência do meu novo lugar. 

 

Estou do outro lado. 

E o outro lado não é um adeus. 

É um novo começo para o reencontro. 

Um campo aberto onde o sol nasce de novo. 

 

Olha bem, meu amor. 

A paisagem mudou, sim. 

Mas o vento que sopra aqui 

ainda carrega o cheiro da nossa primeira manhã. 

 

Eu aprendi a dançar com o eco 

de sua voz na brisa nova. 

Eu aprendi a segurar o silêncio 

e transformá-lo em espaço para a espera paciente. 

 

A ponte existe. 

Sempre existiu. 

Eu apenas a cruzei para entender 

que amar de longe também é uma forma de abraçar. 

 

A grama aqui é mais verde, talvez. 

Ou talvez meus olhos estejam mais abertos. 

Eu estou do outro lado, 

mas meus olhos estão fixos no caminho de volta, 

aquele que agora é pavimentado com a sabedoria da jornada. 

 

Eu não fui embora. 

Eu fui buscar a chave 

para abrir a porta que nos esperava, 

aquela que só se destranca com a experiência completa. 

 

O fio está seguro. 

Aguardo você na margem, 

na margem que agora chamo de lar. 

A travessia foi só um capítulo. 

O livro, meu bem, é sobre nós.

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