Eu sou feita de dores

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 08 de Março de 2026 ás 17h 02min

Eu sou feita de dores 

não minhas 

ecoando nos ossos 

como pedra jogada em poço fundo. 

 

Carrego este peso 

um rio invisível 

sob a pele, 

nas veias onde o sangue não corre 

apenas a memória fria 

de chuvas passadas 

que nunca molharam meu rosto. 

 

São lágrimas alheias 

presas na garganta, 

um nó que aperta 

quando o sol tenta nascer. 

Sinto a fadiga de vidas 

que não vivi, 

o luto de amores 

que não perdi. 

 

Este rio invisível me puxa 

sem corda, sem farol, 

para um mar de sal e esquecimento, 

onde as ondas são feitas de suspiros 

e o fundo é a noite eterna. 

Um convite ao afogamento lento. 

 

Mas a margem resiste, 

a vontade teimosa 

de respirar um ar limpo. 

Eu me recuso. 

 

Este corpo não é navio 

para carregar tempestades 

de outros portos. 

Esta alma não é depósito 

de mágoas que não plantei. 

 

Quero me renunciar 

destas dores emprestadas. 

Despir-me da sombra 

que insiste em me cobrir. 

Deixar que o rio volte à nascente, 

que o mar se feche em si mesmo. 

 

Eu me desfaço 

destas dores estranhas, 

não são minhas, eu digo ao vento. 

E a cada passo longe da correnteza, 

o chão sob meus pés 

parece um pouco mais firme, 

a luz um pouco mais minha. 

Recusa é plantar um jardim 

onde só havia lama. 

Recusa é aprender a ser leve 

sem carregar o mundo 

que não me pertence.

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