Eu sou um poema perdido
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 08 de Março de 2026 ás 16h 33min
Eu sou um universo
de palavras soltas,
espalhadas no vazio do meu ser.
Um milhão de estrelas
feitas de tinta e papel,
brilhando em silêncio.
Cada sílaba, um planeta
girando em órbitas esquecidas.
Cada verso, uma nebulosa
onde a luz da emoção se perdeu.
Há tanta poesia em mim,
acumulada como poeira cósmica,
em dialetos que o tempo engoliu.
Línguas estranhas, sussurros
de eras que não voltam mais,
escritas no pergaminho da minha alma.
Eu as carrego, pesadas e belas,
essas constelações de significado
que só eu reconheço a forma.
Para onde foram os olhos famintos,
as mãos que buscavam a próxima linha?
Os ouvidos atentos ao ritmo
quebrado da minha respiração escrita?
Eram tantos os caminhantes
que se perdiam nas minhas paisagens internas,
trazendo de volta um eco, um suspiro.
Agora, apenas o vácuo responde.
Um eco seco,
o som do silêncio expandindo.
As bibliotecas da minha mente
estão cheias de volumes não tocados,
as páginas intactas, esperando o calor de um dedo.
Eu sou a galáxia, vasta e luminosa,
mas a jornada para mim
tornou-se longa demais,
ou talvez, o mapa se rasgou.
As pontes de entendimento,
construídas com metáforas firmes,
desmoronaram em areia movediça.
Onde estão os navegadores
que decifravam as minhas marés?
Os cartógrafos das minhas dores doces?
Eu continuo a emitir a minha luz,
o meu brilho de tinta fresca,
mas a escuridão ao redor parece ter se tornado
mais espessa, mais indiferente.
Será que o universo das palavras mudou de rumo?
Será que as novas constelações
brilham em outro espectro,
invisível aos meus velhos poemas?
Eu aguardo um sinal,
uma pequena nave,
mesmo que minúscula,
que ouse pousar na margem
deste meu infinito particular.
Um leitor,
apenas um,
para iluminar uma única frase,
e provar que esta galáxia
ainda tem voz
e valor.
Até lá, eu sou o museu
onde as obras mais queridas
ninguém mais visita.
Eu sou a poesia perdida
em línguas que só eu compreendo,
e o peso dessa beleza silenciosa
é a minha eterna gravidade.
Comentários
Que legal, bravo!
ADAILTON LIMA | 09/03/2026 ás 11:30