Eu sou um rascunho
Outono | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 07 de Março de 2026 ás 07h 14min
Eu sou um rascunho
Esquecido na gaveta de madeira escura
Onde a poeira fina se acumula
Como areia fina de um tempo que se foi.
Antigo, sim,
Com as bordas amareladas
E as dobras marcadas
De muitas mãos que me seguraram
E depois me deixaram cair.
Apagado em partes,
As palavras mais vibrantes
Diluídas pelo tempo e pela água
Talvez lágrimas, talvez chuva leve
Que infiltrou a memória.
A tinta, outrora firme e preta,
Hoje é um cinza pálido
Quase sussurro de grafite
Rendendo-se à folha.
Eu sou quase um poema
Um eco distante de métrica
Que tentou ser perfeito
Mas parou no meio do verso.
De outrora,
Daquele tempo em que a luz era diferente
Mais dourada, talvez mais quente.
As estações giravam mais lentas,
Ou eu era mais paciente.
Um tempo outonal, certamente.
O cheiro de terra úmida
E folhas secas rolando na calçada.
A melancolia doce
Que envolve as despedidas silenciosas.
Eu guardo a promessa de um sentimento forte
Que nasceu sob a luz de um outono específico
Talvez um olhar trocado
Ou uma promessa sussurrada ao vento frio.
Agora, sou apenas a sombra
Do que poderia ter sido.
Um esboço inacabado
De uma emoção que não se completou.
As vírgulas estão tortas.
Os pontos finais, hesitantes.
Nenhum leitor hoje decifra o fervor
Que me fez nascer naquela tarde de névoa.
Sou a página que ninguém escolhe
Entre os livros novos e brilhantes.
Mas carrego o peso honesto
Da tentativa, do suspiro inicial.
Um rascunho que resiste.
Antigo, sim, mas com a beleza
Daquilo que aceitou sua incompletude.
Eu sou a saudade da manhã outonal
Gravada no papel.