Eu sou um retalho

Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 18 de Fevereiro de 2026 ás 14h 02min

Eu sou um retalho 

Tecido com fios soltos 

De dias que não vivi 

E mãos que nunca segurei. 

 

Minha textura é áspera 

Em alguns pontos, macia em outros, 

Um mapa desordenado 

De cores emprestadas. 

 

Carrego nas costuras 

A força de quem remendou 

A vida de um estranho, 

A dor que não me pertencia. 

 

Cicatrizes profundas, 

Marcas de agulhas alheias, 

São a minha história, 

Escrita em linho e algodão esquecido. 

 

Eu sinto o peso leve 

Dessa herança de trapos, 

Um manto improvisado 

Para cobrir o vazio do ser. 

 

E sigo, 

Piso incerto no chão da noite, 

Onde o silêncio pesa mais que a luz. 

 

A escuridão é vasta, 

Um oceano sem margens, 

Mas lá em cima, 

As estrelas piscam, frias, distantes. 

 

Eu não sei o nome delas, 

Nem a história do seu fogo, 

Mas elas são meu guia, 

Pontos de luz num tecido escuro. 

 

Minha alma, um remendo vivo, 

Aprendeu a dobrar-se ao vento, 

A aceitar a falta 

Como parte da tapeçaria. 

 

Toco o meu caminho 

Com a ponta dos pés cansados, 

Um passo hesitante 

Entre um retalho e outro. 

 

Eu torço, eu me enrosco, 

Busco um fio que me una, 

Que me faça inteiro, 

Mesmo sendo feito de sobras. 

 

A esperança é um novelo 

Que se desenrola lentamente, 

Um fio de ouro tênue 

Na escuridão que me envolve. 

 

Eu sou o remendo que persiste, 

A costura que não cede, 

Um fragmento costurado 

Na imensidão do nada. 

 

E assim, 

Entre o brilho mudo dos astros 

E a memória dos outros, 

Eu teço o meu amanhã, 

Um ponto de cada vez.

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