O primeiro cheiro que ela aprendeu a reconhecer foi o da terra molhada depois da chuva quente, quando o céu desabava em pancadas curtas e decididas e, logo em seguida, o sol voltava como se nada tivesse acontecido, fazendo o vapor subir do chão e transformar o quintal num mundo de névoa e promessas. Ali, entre a vegetação que misturava a teimosia do cerrado e a abundância amazônica, ela cresceu olhando o horizonte como quem aprende a ler um livro sem letras: a linha das árvores contava histórias de seca e cheia, de fogo e renascimento, de frutos que amadurecem no tempo certo, mesmo quando ninguém está olhando. Era um lugar sem nome, como tantos outros que o mapa não faz questão de decorar, mas que guardam em si a força de um país inteiro — capins ásperos e retorcidos dividindo espaço com palmeiras generosas, cipós desenhando caminhos invisíveis, troncos escuros de casca grossa resistindo aos anos, e, por trás de tudo, o coro das cigarras marcando o compasso de cada tarde.

Ela nasceu na metade do século passado, quando as notícias demoravam a chegar e os sonhos eram construídos com as mesmas mãos que levantavam cercas. A infância foi simples como pote de barro e, ainda assim, cheia de riqueza: a riqueza de aprender cedo que a vida responde melhor à persistência do que à pressa. Enquanto outras meninas brincavam de boneca, ela via a mãe separar sementes como quem separa destinos, escolhendo as mais firmes, as mais inteiras, as que carregavam dentro de si a promessa de amanhã. E o pai, homem de poucas palavras e muitas manhãs, ensinava sem discurso: colocava o facão no ombro e saía antes do sol, voltava com o corpo cansado e o olhar distante, como se o cansaço não fosse da lida e, sim de toda uma vida. Assim, ela foi aprendendo que o mundo não se oferece; o mundo se conquista — e que toda conquista tem o peso do esforço, o preço do tempo e a doçura tardia da recompensa.

Quando a juventude chegou, chegou como vento de agosto: levantando poeira e vontade, trazendo um inquieto desejo de ir além do que o olho alcançava. Havia, naquele tempo, um silêncio enorme em torno das ambições de uma mulher, como se sonhar fosse um luxo que não lhe pertencia. Mas ela sempre teve dentro de si a obstinação de uma árvore de casca grossa, dessas que parecem secas por fora e, ainda assim, guardam água no íntimo, prontas para florir quando o clima permite. Discutia com o mundo, entrava em combate com palavras, porque sabia que o melhor argumento é a realidade construída. Fez escolhas que pareciam estranhas para muitos: estudou quando podia, trabalhou quando doía, ajudou a família sem perder de vista o que queria ser, e seguiu adiante como quem planta sabendo que não colherá no dia seguinte. Nem sempre a entenderam. Havia quem chamasse de teimosia o que, na verdade, era direção; havia quem confundisse foco com frieza, e quem interpretasse disciplina como distância. Mas ela nunca se explicou demais, porque aprendeu cedo que certas decisões não precisam ser aprovadas — precisam ser sustentadas.

Ela viu as transformações chegarem como uma estrada abrindo o mato, primeiro tímida, depois larga, depois inevitável. Viu máquinas entrarem onde antes só havia boi e enxada; viu a luz elétrica substituir o lampião e, com ela, novas rotinas, novas urgências, novas formas de existir. Viu a cidadezinha crescer sem ser nomeada, como se brotasse do chão, ganhando ruas, construções, comércio, promessas. Onde antes havia trilha de terra, surgiram caminhos firmes; onde antes havia silêncio noturno e conversa na calçada, surgiram rádios, televisões, motores, e uma pressa que parecia contagiosa. Atravessou décadas com passos constantes e apressados, as vezes se deixar intoxicar pela velocidade: enquanto o mundo corria. Cultivava relações, cultivava trabalho, cultivava sonhos. Sua vida foi como um quintal bem cuidado: não o mais bonito aos olhos apressados, mas o mais fértil quando se olha com atenção.

Casou-se sem perder a si mesma, como quem soma e constrói. Teve filhos, viu netos, viu a roda do tempo girar e trazer novos desafios que, para ela, eram apenas outra estação do mesmo campo. Trabalhou em diferentes frentes — ora com mãos na terra, ora com mãos no papel, ora com mãos guiando outras mãos — e, em todas, carregava a mesma filosofia silenciosa: o esforço é uma semente; o resultado é fruto. As dificuldades existiram, claro, como existem as estiagens e as enchentes, como existem as pragas e o vento forte que derruba o que parecia firme. Mas ela não fazia da dor uma casa; fazia dela apenas um corredor. Passava por dentro, aprendia o necessário e seguia. Se chorou, chorou escondido, como chuva que cai no meio da noite; se temeu, temeu com discrição, como bicho que se recolhe quando o mato estala. Não era ausência de fragilidade — era presença de propósito.

Com o tempo, sua casa virou ponto de referência. Não pelo tamanho, não pelo luxo, mas pelo que se sentia ali. O quintal sempre tinha alguma coisa crescendo, mesmo que fosse só uma muda insistente perto do muro. E era aí que a mensagem dela se espalhava de forma direta e astuta. Nem sempre entenderam seus motivos, e talvez nunca entendessem por completo, mas ela seguiu assim mesmo, porque perseguir um sonho é, muitas vezes, caminhar com um mapa que só você consegue ler.

Com passar dos anos seus olhos ficaram mais atentos ao detalhe do que ao espetáculo. Reparava no modo como a luz da manhã atravessava as folhas e desenhava no chão uma espécie de escrita antiga; reparava no canto dos pássaros como se cada um contasse um capítulo; reparava no vento que vinha do lado onde o mato se adensava, trazendo cheiro de folha esmagada e promessa de chuva. Sentava na varanda e parecia, para quem passava, apenas descansar. Mas ela não descansava: ela colhia. Colhia as lembranças como quem colhe frutos maduros. Via o que construiu como troféu e safra. A recompensa, para ela era brilho e consistência. Era ver o respeito chegando sem alarde, como chega a sombra de uma árvore grande: de repente, está ali, abrangendo tudo.

Tocou a casca de uma árvore antiga, dessas que atravessam gerações sem pedir licença, e sorriu. Não havia orgulho ruidoso, nem nostalgia pesada; havia apenas a certeza de quem viveu com intenção. O ontem, para ela, era semente lançada com fé. O amanhã, era o campo que outros cultivariam. E o presente — aquele instante de luz e vento — era o fruto colhido com as mãos que não desistiram.

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