Habilidade que encanta
| Literatura juvenil | 2025 - Antologia Djordana Cecilia Bombarda e Convidados | Manoel R. LeitePublicado em 10 de Março de 2026 ás 15h 12min
O primeiro dia de aula sempre tem um barulho diferente. Não é apenas o som das crianças chegando. É um barulho feito de passos apressados, mochilas batendo nas costas, vozes curiosas e alguns choros que ainda não sabem muito bem por que estão ali.
A professora Ana chegou cedo naquela manhã. Abriu as cortinas da sala e deixou o sol entrar devagar, espalhando luz pelas carteiras pequenas. Sobre a mesa havia lápis novos, folhas coloridas e um quadro ainda limpo esperando as primeiras palavras do ano. Logo começaram a chegar as crianças.Um menino entrou correndo, como se já conhecesse a escola inteira. Uma menina segurava a mão da mãe com tanta força que parecia ter medo de se soltar. Outro garoto observava tudo em silêncio, olhando para os cantos da sala como quem tenta descobrir onde está cada coisa.
Algumas crianças falavam muito. Outras quase nada.
_ Professora, quando a gente vai para o parquinho? - perguntou um menino antes mesmo de tirar a mochila.
_ Hoje ainda tem parquinho? - quis saber outra menina, já olhando pela janela.
Havia também quem perguntasse baixinho:
_ Que horas a gente vai embora?
A professora sorria. Ela já conhecia aquele tipo de manhã. O começo do ano era sempre assim: um pouco de curiosidade, um pouco de saudade de casa e muitas perguntas espalhadas pela sala.
Entre todas aquelas crianças estava Lucas. Ele entrou devagar na sala, olhando para o chão. Sentou-se numa carteira perto da parede e ficou quieto. Não falou com ninguém. Apenas abriu a mochila e ficou observando os lápis tais qual quem busca as estrelas em pequenas fagulhas.
Durante àquela manhã, a professora percebeu que ele falava pouco. Enquanto as outras crianças conversavam, Lucas desenhava em silêncio. Enquanto alguns queriam correr pelo pátio, ele preferia ficar sentado, olhando o movimento ou talvez a si mesmo.
Ana notava tudo aquilo com cuidado. Sabia que cada criança chegava à escola com seu próprio tempo. Algumas chegavam correndo, como se o mundo fosse grande demais para esperar. Outras chegavam devagar, como quem ainda está atravessando uma ponte suspensa entre casa e a sala de aula.
Em alguns momentos, Lucas parecia preocupado. Quando ouviu duas crianças dizendo que adoravam a escola, ele ficou olhando para a porta. Quando falaram sobre as atividades da semana, ele apenas escutou.
A professora pensou naquele início. Poderia Lucas estar com saudade de casa; poderia estar com medo de um lugar novo. Lembrou que, às vezes, crescer também é aprender a caminhar em lugares que ainda não conhecemos muito bem.
O dia passou entre desenhos, histórias e algumas risadas tímidas. Quando o relógio da escola anunciou o fim das aulas, o corredor começou a se encher novamente de vozes. Mochilas voltaram para as costas e muitas crianças correram até o portão.
Lucas também foi para fora, ainda quieto. Sua professora ficou observando enquanto os pais chegavam.
Algumas crianças saíam correndo para abraçar quem vinha buscá-las. Outras contavam tudo de uma vez: o desenho que fizeram, o lanche que comeram, o amigo novo que conheceram.
Foi então que Ana viu algo que não esperava. Uma mulher se aproximou do portão trazendo um menino pequeno pela mão. O garoto devia ter uns três anos e parecia ainda menor ao lado das mochilas grandes das outras crianças.
Assim que Lucas o viu, seu rosto mudou completamente. Correu até o irmão.
— Pedro! — disse com alegria.
O menino pequeno abriu os braços e quase caiu no abraço. Lucas segurou a mão do irmão com cuidado, como se estivesse protegendo algo precioso. Abaixou-se para falar com ele, mostrando a mochila, apontando para a escola, contando alguma coisa que fazia o pequeno rir.
Depois ajudou o irmão a subir um pequeno degrau perto do portão, segurando firme sua mão.
A professora ficou olhando aquela cena. Ali estava o mesmo menino quieto da sala, mas agora diferente: atento, carinhoso, cheio de cuidado. Ele não parecia retraído naquele momento. Parecia apenas um irmão mais velho orgulhoso de caminhar ao lado de alguém que amava.
Enquanto os dois iam embora ao lado da mãe, Lucas ainda se inclinava para escutar o que Pedro dizia, respondendo com paciência e rindo de coisas que só os dois entendiam. Ela pensou então que cada criança revela suas habilidades de um jeito único.
Algumas encantam contando histórias. Outras encantam desenhando. E, algumas encantam com gestos simples, como segurar a mão de alguém menor com todo o cuidado do mundo.
Nem sempre a escola vê imediatamente tudo o que uma criança sabe ser. Porém quando olhamos com atenção, descobrimos que cada uma traz consigo algo bonito.
E às vezes a habilidade mais encantadora de todas é simplesmente saber cuidar de quem se ama.