Hoje eu sou um pássaro cômico
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 10 de Março de 2026 ás 18h 38min
Hoje eu sou um pássaro cômico,
de penas desalinhada sou um piado que falha no meio da nota.
Eu pulo de galho em galho com um desequilíbrio ensaiado,
oferecendo espetáculos de cambalhotas aéreas para o ar indiferente.
Minhas cores, um arco-íris desbotado que insiste em ser vibrante,
atraem olhares de quem passa rápido na calçada lá embaixo.
Eu gorjeio bobagens,
imito o som da buzina de um carro velho,
e finjo lutar com um inseto imaginário com uma bravura ridícula.
Eu sou a piada do céu azul,
o alívio breve na paisagem séria das árvores altas.
E eu amo isso.
Eu abraço a leveza inesperada deste corpo que insiste em desafiar a gravidade com um certo charme desajeitado.
Mas antes...
Antes eu era outro tipo de criatura,
ancorada ao chão,
com a pele fina como papel de seda pronta para rasgar ao menor toque do vento forte.
Eu vivia de olhos abertos com medo.
Cada sombra que se alongava era um predador invisível cujas garras eu sentia roçar na nuca.
O céu, aquele imenso e aberto azul,
não era um convite, era uma ameaça,
um vácuo perigoso onde tudo podia cair.
Eu observava os pássaros de verdade com uma inveja silenciosa e pesada.
Eles dançavam nas correntes de ar sem pedir licença,
e eu aqui embaixo,
contando cada respiração como se fosse a última moeda.
Meus passos eram cautelosos,
medindo a distância entre as rachaduras do asfalto,
temendo o próximo passo errado,
a próxima palavra que ecoaria e me entregaria ao julgamento alheio.
A luz do sol parecia forte demais,
expondo minhas fragilidades como um holofote cruel.
O silêncio era um alarme tocando baixo,
e o barulho, um grito que anunciava o desastre.
Eu me encolhia nos cantos,
tentando ser invisível,
um borrão cinzento na periferia da vida.
E então, não sei quando,
talvez depois de um tropeço particularmente humilhante,
ou talvez só por exaustão da própria vigilância,
algo mudou.
Amola que me mantinha tenso relaxou,
e eu percebi que a queda não vinha.
O medo não desapareceu de vez,
ele apenas perdeu sua força ditatorial.
E um dia, por acidente,
eu pulei um pouco mais alto do que o necessário.
E flutuei.
Não voei com elegância de águia,
mas sim como um pedaço de papel amassado que o vento gentilmente decide carregar.
Eagora,
eu sou o pássaro cômico.
O que tropeça na própria asa,
o que erra a nota e ri do próprio som.
Eu troquei a rigidez do terror pela flexibilidade da palhaçada.
E se o medo tenta voltar,
eu dou uma cambalhota para despistá-lo,
solto um piado estridente e desafinado,
e lembro que, mesmo desajeitado,
eu sou livre para ser ridículo no palco que antes me parecia uma prisão.
Hoje eu sou só alegria desajeitada.