LADAINHA DOS FAMINTOS
Tony Antunes
Abençoai as esquinas,
Principalmente as famintas,
Becoscidades que nos mastigam,
A noite de um tambor rachado,
Gritamos miloucos sem pão.
Perdoai os becos cegos,
Sobretudo os sem sobrenome,
Fomecracia que governa o
[estômago,
No céu de um prato vazio,
Chovem milhões de ossos na
[calçada.
Santificai as hienas urbanas,
Mais ainda, as da pele-rua,
Desesperança que nos batiza,
A cidade é uma fornalha fria,
Ardentes de mil invernos
[por minuto.
Bendizei os muros altos,
E as portas sem maçaneta,
Para a sobrevivência virar
[sobrevivênci-ação,
O peito, num cofre em ruínas,
Carrega oceanos nas veias
[ressequidas.
Acolhei as vozes roucas,
Principalmente as anônimas,
Esperançário insistente a florir,
O asfalto, rosário de brasas,
em que rezamos cem mil vezes
[ao nada!
Palmares, 5 de fevereiro de 2026
Aos desvalidos de amor, casa, comida e dignidade da Palestina!
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Lei 9610/1998
Comentários
O poeta utiliza a estrutura de uma prece religiosa para denunciar a miséria e a invisibilidade humana e social. Nessa "Ladainha" o escritor, ao invés de pedir por graças, milagres, bênçãos religiosas, clama pelos famintos, sem teto, sem sobrenome, os desvalidos. Parabéns pelo belo poema! Parabéns, também,. pelos neologismos, dignos de um mestre literato!
Lorde Égamo | 06/03/2026 ás 16:05