Lágrimas do mar
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 30 de Abril de 2026 ás 07h 52min
Lágrimas do mar
Enquanto o navio desliza
nas sombrancelhas do mar,
ela chora em silêncio.
O convés é um palco vasto,
a noite, um manto bordado
de estrelas distantes, indiferentes.
Cada onda que beija o casco
é um sussurro rouco,
um lamento ancestral
que ecoa em seu peito.
Não são gotas salgadas
que rolam por seu rosto,
mas a saudade líquida
de um porto que ficou para trás,
de um abraço que se desfez
na bruma da partida.
O vento leva consigo
o perfume de flores que não mais verá,
o som de risos que se perderam
na distância implacável.
O oceano, imenso espelho escuro,
reflete sua solidão nua.
Cada movimento do navio,
uma pulsação lenta,
arrastando-a para longe
do que um dia chamou de lar.
Os mastros, esqueletos contra o céu,
apontam para um horizonte incerto,
um destino sem contornos claros.
E ela, pequena figura neste gigante adormecido,
sente o peso do mundo
nas suas pálpebras pesadas.
O ranger da madeira,
o assobio agudo dos cabos,
tudo se mistura
numa sinfonia de melancolia.
O sal do mar,
que um dia foi promessa de aventura,
agora arde em suas feridas abertas,
as feridas invisíveis do coração.
As gaivotas, fantasmas brancos,
dançam na escuridão,
testemunhas mudas de sua dor.
Elas conhecem o segredo das marés,
o ciclo eterno de ir e vir.
Mas a dor dela,
profunda como o abismo,
parece não ter fim.
O navio avança,
impulsionado por forças que ela não controla,
levando-a para o desconhecido.
E as lágrimas,
simples lágrimas de mulher,
se fundem ao vasto choro do mar,
diluindo-se na imensidão,
perdidas e encontradas
na poesia salgada
da noite sem luar.