Lembrança outonal
Outono | Crônica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 18 de Maio de 2026 ás 13h 51min
Lembrança Outonal
de Rosy Neves
Os olhos dele refletiam uma lembrança outonal. Não era apenas tristeza. Era como se dentro daqueles olhos morasse um jardim antigo, coberto de folhas secas, onde os passos de alguém amado ainda ecoavam baixinho entre os corredores da memória. Quando ele olhava para o horizonte, parecia enxergar muito além das ruas, além das árvores, além do próprio tempo. Via um mundo que já não existia mais.
Houve dias em que o amor lhe chegava como primavera. As manhãs tinham cheiro de café recém-passado e chuva leve nas janelas. Ela ria devagar, como quem tinha medo de quebrar a delicadeza das coisas, e ele acreditava que certas felicidades poderiam durar eternamente. Os dois caminhavam pelas tardes douradas sem imaginar que o tempo, silencioso e cruel, já afiava suas despedidas.
Mas o amor, às vezes, é uma casa construída perto demais do inverno.
Com o passar dos anos, as cartas foram desaparecendo das gavetas. As flores morreram dentro dos livros esquecidos. O perfume dela evaporou-se dos lençóis como névoa tocada pelo sol da manhã. Restaram apenas pequenos fantasmas: uma canção antiga tocando ao longe, um vestido balançando no varal da memória, o som distante de risos que nunca mais voltariam.
Ele envelheceu em silêncio.
Tornou-se desses homens que conversam pouco porque carregam oceanos dentro do peito. Sentava-se perto da janela todas as tardes, observando as folhas caírem das árvores, como se cada folha fosse um pedaço do passado se desprendendo lentamente do coração do mundo.
Às vezes, pensava nela. Pensava em seus olhos cheios de aurora, em suas mãos mornas nas noites frias, no jeito como ela dizia seu nome como quem acendia uma vela dentro da escuridão. E então uma tristeza funda atravessava sua alma — não pelo amor ter acabado, mas porque algumas pessoas continuam vivendo dentro de nós mesmo depois que o universo as leva para longe.
Os olhos dele refletiam aquele outono interminável.
E quem o observasse com atenção perceberia que havia ali uma espécie de despedida eterna acontecendo em silêncio. Como um velho marinheiro olhando o mar depois do naufrágio, sabendo que jamais encontrará novamente a ilha onde foi feliz.