Mãe de TDAH e TEA
Teve três filhos e antes mesmo de aprender a dormir como mãe, aprendeu a vigiar.
Até os dois anos de idade, os três filhos choravam dia e noite.
Não era um choro comum. Era contínuo, profundo, exausto.
Ela vivia em alertas vinte e quatro horas por dia, como se o mundo pudesse desabar caso fechasse os olhos por alguns minutos.
Descansar era uma palavra distante, quase inexistente.
Não conseguia se alimentar direito. Não conseguia trabalhar.
Os filhos viviam no colo, porque não ficavam com ninguém. Estranhavam pessoas, ambientes, vozes. Quando não choravam, gemiam e, quando gemiam, o silêncio também doía.
Aos poucos, ela deixou de se ver, de se sentir.
Chegou ao limite entre a lucidez e a loucura, acreditando que iria enlouquecer. Mas não podia esmorecer. Sabia, mesmo sem saber como explicar, que se ela não estivesse ali, ninguém estaria.
Ninguém gostava de tê-los por perto. Diziam que incomodavam. Que choravam demais. Que gritavam, esperneavam, batiam de frente, tinham atitudes incompreensíveis. E ninguém tentava ajudar. Ao contrário: vinham as críticas. Muitas críticas.
Diziam que as crianças estavam doentes. Que tinham alguma coisa. E tinham mesmo mas ela ainda não sabia. Era jovem, sem conhecimento, sem orientação, sem acolhimento.
O tempo passou. E foi pela dor que ela começou a buscar respostas. Estudar. Ouvir. Aprender. E então veio o entendimento: seus filhos eram TDAH e o mais novo TEA. E ela, agora sabia, também na busca pelo próprio diagnóstico.
Eles nunca foram difíceis. Eram diferentes. Eram especiais.
Mas antes do entendimento, veio à depressão Profunda. Uma dor que não se explica é como se arrancassem a carne dos ossos por dentro.
Ela estava morrendo aos poucos e ninguém percebia.
Em 2016, depois de criar os filhos, encaminhá-los, emancipá-los, o corpo disse basta. Ela colapsou. Sentia que a luz estava se apagando. Pensou que não resistiria. Já completando 32 anos de trabalho para se aposentada, não tinha mais forças para falar, nem para ficar de pé.
Zerada de vitaminas. O corpo não sustentava. Esgotada emocionalmente, fisicamente e financeiramente. Um colapso total.
Vieram os desmaios. As internações. As infecções repetidas.
E o mais estranho e, mais doloroso era isso:
Estava morrendo a frente dos olhos de tantos, mas, ninguém percebia.
Mas ela resistiu, buscou forças onde nem ela sabia que tinha.
Resistiu porque já havia sobrevivido antes, quando ninguém a via. Sobreviveu à invisibilidade, ao julgamento, à exaustão. Sobreviveu porque mães de filhos diferentes aprendem a ser fortes antes mesmo de saber que são.
Hoje, com diagnóstico entende tudo isso
Mas, esse entendimento não apaga a dor, mas dá sentido à história.
Essa mãe não foi fraca, pelo contrário
Foi mãe. E isso mudou tudo.