Maio Mães Mulheres Marias
| Crônica | 2026/05 Antologia Dias escritos em prosa | Neiva Guarienti PagnoPublicado em 29 de Maio de 2026 ás 22h 05min
No dia 10 de maio deste ano foi o Dia das Mães e, num evento familiar, me encontrei com uma amiga de infância chamada Maria Júlia. Atualmente, ela tem vinte e cinco anos, é casada e tem dois filhos: a Maria Eduarda de quatro anos e o João de dois. Conversa vai, conversa vem, disse-me que se denomina uma Mulher Premium. “Mulher Premium? O que isso significa?”–lhe perguntei.
“Ah! Mulher Premium, porque eu cuido do meu corpo, da minha alimentação, tenho alguém que me auxilia nas tarefas da casa, consigo pagar escola particular para meus filhos, faço massagens sempre que estou estressada, vou às compras quando preciso acalmar minha ansiedade, viajo sozinha quando preciso descansar minha cabeça e esquecer dos problemas, além disso não necessito trabalhar, porque meu marido me dá tudo o que eu peço. Sou uma Mulher Premium, pois minhas necessidades vêm antes do que as dos outros.”
Ficamos um bom tempo juntas naquele dia, então nos despedimos e fui para casa, mas a expressão Mulher Premium não saiu mais da minha cabeça.
À noite, deitada na cama, eu refletia sobre Mulher Premium. Nada contra ao que Maria Júlia é, faz ou deixa de fazer de sua vida. Acho importante ter autoestima e cuidado com o bem-estar pessoal.
Entretanto, o que dizer de Carolina Maria de Jesus, mulher negra, catadora de papel, criou sozinha seus três filhos e, nos cadernos velhos que encontrava no lixo, escrevia sobre a fome e o dia a dia dos moradores da favela onde morava. Carolina foi uma mulher incrível, pois apesar de enfrentar preconceito por ser negra e pobre, deixou seu legado como pessoa batalhadora, compositora e poetisa.
E quanto à Maria Quitéria? Ela foi a primeira mulher brasileira a integrar uma unidade militar no nosso país. Vestia-se com as roupas masculinas e tinha os cabelos cortados para conseguir se alistar secretamente no exército. Maria Quitéria foi uma heroína da Independencia do Brasil.
Tem ainda a história de Bertha Maria Julia Lutz, mulher cientista e uma das maiores líderes na luta pelo voto feminino no Brasil. Graças ao seu enorme esforço, as mulheres brasileiras conseguiram o direito do voto no ano de 1932.
Ah! E quem não conhece Maria da Penha Maia Fernandes? Mulher que sobreviveu a agressões do marido fundamentadas no terror doméstico por inúmeros anos, até o dia em que seu esposo lhe atirou nas costas deixando-a paraplégica. Depois desse fato e após 20 anos de luta para ver seu agressor punido, Maria da Penha teve seu nome batizado na lei mais importante do país contra a violência doméstica.
Obviamente, não poderia deixar de falar de Maria de Nazaré, mãe de Jesus. Mulher humilde, caridosa, cheia de fé, mulher de força, de extrema coragem e que em pé, sem fraquejar, viu, chorou e assistiu seu filho ser crucificado e morto na cruz.
E o que dizer de tantas Marias, de ontem e de hoje, mulheres, mães, batalhadoras, lutadoras, aguerridas, dedicadas, empoderadas, muitas sem oportunidades, sem estudo e que, na luta diária, merecem mais do que o título de Mulher Premium. Merecem amor, respeito, valor, igualdade, direitos e, quem sabe, a condecoração de Mulher Prime.
Finalizei meu Dia das Mães no meio de muita divagação, mas na certeza de que esse dia do mês de maio deveria ser celebrado diariamente no lar de todas as mães mulheres Marias.