Mapa para lugar algum

Contos | 2025 - Antologia Dolores Flor e Convidados - A Viagem | Manoel R. Leite
Publicado em 12 de Janeiro de 2026 ás 16h 38min

Helena Duarte comprou o mapa por engano, ou foi isso que disse a si mesma depois, quando tentou justificar o impulso. O mercado de rua não tinha nada de extraordinário: barracas improvisadas, frutas amadurecendo rápido demais sob o sol, livros usados empilhados sem ordem, muitos dos quais, quase todos na verdade já lidos por ela, discos de vinil que ninguém mais escutava e objetos que pareciam ter sobrevivido a várias vidas. Helena passava por ali sempre que precisava se convencer de que o mundo existia para além da tela do computador e das páginas em branco que insistiam em não se preencher.

Ela tinha trinta e dois anos, cabelos castanhos quase sempre presos num coque apressado, olhos atentos demais para alguém que dizia não esperar nada. O corpo era magro, não por vaidade, mas por distração: esquecia de comer quando escrevia, esquecia de escrever quando duvidava demais. Vestia-se de maneira neutra, como se não quisesse interferir na paisagem — jeans, camisetas claras, sapatos confortáveis. Havia nela um modo de estar que lembrava personagens que vivem à margem das grandes ações, mas observam tudo com precisão cirúrgica. Helena era escritora iniciante. Publicara contos em revistas literárias de circulação restrita, participara de oficinas, ouvira elogios cautelosos e críticas generosas demais para serem totalmente sinceras. Carregava cadernos cheios de anotações, frases sublinhadas de outros autores, ideias que pareciam grandiosas à noite e frágeis pela manhã. O que a perseguia não era a falta de histórias, mas a pergunta silenciosa que se infiltrava em cada tentativa: Quem escreve quando eu escrevo?

Naquele local de visitação encontrou algo que chamara a sua atenção. Um mapa que estava dobrado entre pôsteres antigos e revistas amareladas. Não tinha capa chamativa nem título explicativo. Apenas linhas, símbolos e nomes de lugares que não apareciam em nenhum atlas conhecido. Helena tocou o papel e sentiu uma textura áspera, como se ele tivesse sido manuseado por mãos indecisas. O vendedor, um homem de idade indefinida, barba grisalha e olhar distraído, disse apenas:

— É um mapa difícil.

— Difícil como? -perguntou.

Ele deu de ombros. E prossegui:

— Não leva onde a gente espera. Gera muitas curiosidades, desafios e tempos depois volta para cá. Depois do quinto retorno deixei de contar. Mas muitos levam, e todos o trazem de volta.  – Talvez era o que precisava ouvir, não parecia papo de vendedor. Mas causou o seu impacto.

Ela pagou sem barganhar, saiu com o mapa em mãos e muitas curiosidades na cabeça. Sentia uma excitação contida, semelhante à que sentira ao ler Kafka pela primeira vez, ou ao perceber, em Machado de Assis, que o narrador nem sempre é confiável, e que talvez nunca tenha sido. Isso não era tão diferentes dos narradores da vida real, pessoas nem sempre são precisas ou ao menos realistas em suas histórias reais. Mas são ótimas fontes de referência, inspiração e inquietude.

Ao chegar em casa, abriu o mapa sobre a mesa. Espalhou-o como quem abre um corpo para exame, não gostava de necropsia, porém se sentia naquele instante como o Dr. John H. Watson de Sir. Arthur Conan Doyle. Nunca se sentiu apegada nem mesmo encantada por Sherlock Holmes, era muito distante, distinto demais para ela. Em sua opinião a humanidade e realidade sempre esteve presente em Watson, o verdadeiro herói nem sempre é aquele que recebe a fama e a glória. Talvez tenha entendido isso muito cedo quando se submeteu ao Teste de Rorschach, ou ainda, simplesmente quando fez uma relação com os seus personagens favoritos. E, por ironia praticamente nenhum deles era o protagonista.

As linhas do mapa não obedeciam a uma lógica clara. Algumas estradas terminavam abruptamente. Outras se cruzavam sem formar interseções reais. Havia símbolos que lembravam montanhas, mas também labirintos. Pequenas notas escritas à margem diziam coisas como “aqui, escolha”, “voltar não é recuar”, “não confundir hábito com destino”. Certas notas lembravam muito alguns RPG’s clássicos. Todavia o que predominantemente Helena sentia era um incômodo leve, parecido com o que sentira ao ler A Divina Comédia e perceber que o inferno era organizado demais para ser apenas punição. No canto inferior direito deste, uma frase chamou sua atenção: “Siga tudo. Chegue a nada.” Riu, desconfiada. Ainda assim, decidiu seguir o mapa. Não como quem acredita literalmente, mas como quem aceita um pacto literário. Escolheu o primeiro ponto indicado e partiu no dia seguinte.

A primeira indicação levou-a a uma cidade pequena, dessas que parecem viver num intervalo do tempo. Casas térreas, ruas largas demais para o pouco movimento, uma praça central com bancos descascados. O mapa indicava que ela deveria sentar-se ali por uma hora. Apenas isso. Nenhuma ação heroica, nenhum encontro anunciado. Helena sentou. Observou. Um homem alimentava pombos com excesso de cuidado. Uma mulher empurrava um carrinho vazio, talvez para se convencer de que ainda havia algo a empurrar. Crianças corriam em círculos sem objetivo definido. Ao fim da hora, Helena percebeu que nada havia acontecido. Exceto dentro dela. O mapa a havia obrigado a não produzir sentido, a não transformar a cena em metáfora imediata. Aquilo a incomodou profundamente.

Na margem seguinte do mapa, lia-se: “Decida se você observa para escrever ou escreve para observar.”

Ela não respondeu. Seguiu.

O segundo trajeto levou-a a uma estrada interrompida. O mapa indicava continuidade, mas o asfalto terminava em terra batida e, depois, em vegetação fechada. Não havia placas, não havia trilha clara. Parou o carro e caminhou alguns metros. O caminho se perdia. Ela poderia insistir ou voltar. Naquele momento tudo o que veio em sua mente foi Grande Sertão: Veredas e da ideia de que o caminho se faz enquanto se anda, mas também de que toda travessia cobra um preço. Voltou. No mapa, outra anotação surgia como se sempre tivesse estado ali: “Nem toda desistência é fracasso. Algumas são leitura atenta”. Não se viu como Riobaldo, era a voz distante de Diadorim pairando distante em seus pensamentos.

Começou a desconfiar de que o mapa não indicava lugares, mas posturas. E isso a irritava. Ela queria algo concreto. Sempre quisera. Talvez por isso admirasse Flaubert, seu rigor quase cruel com a forma, ou Clarice Lispector, que conseguia tornar o abstrato uma experiência física. Ela, ao contrário, sentia-se suspensa entre o desejo de dizer algo essencial e o medo de não dizer nada.

O terceiro ponto levou-a a uma biblioteca antiga. O mapa indicava que ela deveria escolher um livro sem título visível e lê-lo em pé. O livro era uma edição antiga, sem capa, páginas amareladas. Ao abrir, percebeu que o texto era ilegível: frases interrompidas, palavras borradas, parágrafos que terminavam em silêncio. Helena sentiu uma raiva súbita. Aquilo não era literatura. Aquilo era falha. Mas permaneceu ali, lendo o que não se deixava ler. E, percebeu o quanto sua escrita também tentava preencher vazios que talvez precisassem permanecer vazios. Lembrou-se de Borges e de seus livros infinitos, de bibliotecas que contêm tudo e, por isso mesmo, paralisam. Talvez escrever não fosse acrescentar sentido, mas escolher onde não acrescentar. No mapa, outra frase: “Quem exige clareza de tudo não suporta se ver.” Por poucas vezes sentiu-se um protagonista O Estrangeiro de Albert Camus, vendo o sol brilhar intensamente diante de ti, levando praticamente a cegueira e a uma conduta impensável, impraticável.

A viagem seguiu por dias, tendo breve pausas para se refazer e cumprir compromissos inadiáveis. Cada ponto do mapa a levava a situações que exigiam decisões simples e desconfortáveis: ficar ou sair, falar ou calar, seguir ou interromper. Não havia clímax, não havia resolução externa. Não era existência conflituosa de O Velho e o Mar e todo o simbolismo de Ernest Hemingway. Sentia-se muito mais próxima de A improvável jornada de Harold Fry de Rachel Joyce, logicamente não no lugar de Fry atravessando a Inglaterra por consideração à uma amiga. Se colocava no lugar da carta que não fora depositada no correio, e era levada a pé pelo remetente por milhas e milhas, sem nenhum planejamento, nenhum plano, apenas o desejo de ganhar, tempo, oferecer esperança, e, quem sabe ser algo a mais do que sempre foi. Contudo, o mapa não a conduzia a um destino final. Conduzia-a a si mesma, mas sem oferecer espelho.

Aos poucos Helena começou a escrever menos durante a viagem. Não por bloqueio, mas por excesso de consciência. Cada frase lhe parecia uma escolha ética. Cada palavra, uma tomada de posição. Pensou em Dostoiévski e na culpa que atravessa seus personagens ou mesmo quem seria O Idiota em uma sociedade no qual o amor nada mais é do que um sistema de troca, compra e poder? E, refletia sobre Virginia Woolf e no fluxo que dispensa enredo. Chegando a refrescar-se em Drummond e sua capacidade de fazer do cotidiano um abismo contido. Sentiu-se pequena. E, curiosamente, mais livre.

No último ponto indicado pelo mapa, não havia endereço. Apenas a palavra “retorne”. Helena voltou para casa com a sensação de ter ido muito longe sem sair de si. Espalhou o mapa novamente sobre a mesa. As linhas agora pareciam menos confusas, mas também menos promissoras. Não havia mais nada a seguir.

Ela sentou-se diante do computador. Abriu um novo arquivo. Não pensou em estilo, nem em originalidade, nem em publicação. Pensou apenas em escrever sem mapa. Em aceitar que nenhum trajeto garantiria chegada. Em assumir que escrever era escolher, a cada frase, quem ela estava disposta a ser, não como identidade fixa, mas como gesto momentâneo. Escreveu, não se perguntou se aquilo era suficiente. O mapa, dobrado ao lado, parecia apenas um papel antigo. Talvez nunca tivesse levado a lugar algum. Ou talvez tivesse cumprido exatamente sua função. Não quis responder. Seguiu escrevendo.

Viajei sem mapa quando te encontrei no olhar as horas se perderam nas curvas da tua voz o tempo parou para ouvir tua respiração e o mundo pareceu mais simples, mais nosso partimos sem destino, só com o desejo aceso cada palavra era estrada, cada gesto, farol as manhãs nasceram dentro do teu sorriso. O vento levou nossos nomes por entre nuvens, mãos se tornaram bússolas distraídas descobrindo rotas na pele e nas promessas. Não havia pressa, só o silêncio do instante, ternura que cabia entre dois suspiros. O amor foi um navio que nunca ancorou, porque viajar contigo era sempre partir, sem medo do fim, sem querer o regresso como se amar fosse navegar sem destino certo. Cada toque, o céu se abria em cores novas, o corpo era cais, abrigo, despedida e retorno e o coração, esse viajante sem bagagem aprendeu que o amor é uma travessia eterna Mesmo quando a distância inventa fronteiras, a lembrança segue, fiel, como um farol ao longe. A viagem continua no que ficou em silêncio, no que o tempo não apagou, apenas guardou e se um dia o caminho nos levar por outros mares, levarei comigo a tua voz em forma de vento porque toda viagem começa quando alguém ama e termina quando o amor deixa de partir.

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