Máscaras Cotidianas

| Crônica | Rose Correia
Publicado em 12 de Maio de 2026 ás 10h 42min

Sinopse:

Uma conversa sobre personalidade revela o peso das máscaras que as pessoas usam para serem aceitas.

 

 

Máscaras Cotidianas

 

A roda de conversa havia começado como tantas outras: cadeiras desalinhadas, copos de café esquecidos sobre a mesa e pessoas tentando parecer mais seguras do que realmente eram. O assunto daquela noite surgiu naturalmente — personalidade.

 

Alguém comentou que já não sabia distinguir sinceridade de conveniência. Outro disse que as redes sociais haviam transformado todo mundo em vitrine. Houve quem defendesse que adaptar-se era necessário para sobreviver. E, aos poucos, a conversa tomou um rumo desconfortável: quantas versões de nós mesmos criamos apenas para sermos aceitos?

 

No meio da roda estava um homem de aparência simples. Não falava muito, mas escutava como quem prestava atenção até no silêncio entre as palavras. Seus cabelos grisalhos e o olhar tranquilo lhe davam uma presença difícil de explicar. Não parecia interessado em convencer ninguém, apenas em compreender.

 

Depois de longos minutos ouvindo cada opinião, ele apoiou os braços nos joelhos e disse calmamente:

 

— As pessoas perderam o hábito de existir. Agora preferem interpretar.

 

A frase caiu na roda como pedra em água parada.

 

Ninguém interrompeu.

 

Ele continuou:

 

— Criam máscaras para cada ambiente. Uma para o trabalho, outra para a internet, outra para esconder medo, outra para esconder vazio. Mas é inútil. Chegará um tempo em que todos revelarão exatamente o que são.

 

O silêncio que veio depois parecia mais sincero do que toda a conversa anterior.

 

Alguns abaixaram os olhos. Outros fingiram distração mexendo no celular. Havia algo desconfortável naquela verdade, porque ela não apontava para alguém específico — atingia todos nós.

 

A conversa terminou pouco depois, mas ninguém saiu dali da mesma forma que entrou. Talvez porque certas palavras não terminem quando são ditas. Elas continuam ecoando dentro da gente, desmontando personagens que levamos anos construindo.

 

Moral:

Quem vive apenas para parecer algo aos outros, um dia se perde de si mesmo.

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