Me deixaram chorando
Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 13 de Fevereiro de 2026 ás 20h 21min
A margem oposta,
o brilho enganoso
da promessa molhada.
Eu fiquei aqui,
com os pés na lama fria,
vendo a névoa subir
do rio que nos separava.
Onde você partiu,
a grama parecia
feito veludo recém-cortado,
um tapete esmeralda
sob um sol diferente,
um sol que nunca chega
a este meu lado do leito seco.
Lembro do barulho da água,
o sussurro da correnteza
levando embora meus argumentos,
minhas súplicas baixas.
Você não olhou para trás.
A mochila nas costas,
o passo firme,
já planejando o próximo horizonte
naquele lado mais macio.
Eu tentei gritar seu nome,
mas a voz era só um fiapo
engolido pelo vento que vinha de lá,
o vento que cheirava a orvalho
e a liberdade recém-conquistada.
O rio se alargou,
não em distância,
mas em silêncio.
Um abismo de água parada
entre o que era e o que não seria mais.
Meus olhos arderam,
o sal escorrendo
misturando-se à terra úmida.
Cada lágrima, um pequeno espelho
refletindo a grama verdejante,
a grama que nunca pisarei.
É irônico, a visão tão clara:
você está bem,
florescendo onde a terra é fértil,
e eu, aqui,
na sombra,
com a grama rala,
sempre à beira,
vendo a vida pulsar
do outro lado,
onde a relva era mais alta,
mais viva,
mais sua.
A dor é um peso
que me afunda nesta margem,
enquanto você celebra,
sem saber, talvez,
que seu paraíso
foi construído
sobre as minhas lágrimas
deixadas
na beira do rio.
E a grama, lá,
continua verde.
Insolente,
perfeita.