Memórias ao Café

Reflexos da vida nos gestos simples

Ela acordava cedo, como sempre. O primeiro gesto era coar o café, deixando que o aroma se espalhasse pela cozinha e invadisse a casa inteira. Com a xícara quente entre as mãos, seguia até a área, onde o coqueiro se erguia como guardião de suas manhãs.

Os passarinhos já estavam lá, em festa. Cantavam, saltavam entre as folhas, disputavam espaço como se celebrassem a chegada do dia. Ela sorria, porque naquela algazarra havia uma alegria que não se explicava, apenas se sentia.

O café, forte e doce, trazia lembranças. Cada gole era uma viagem: a infância na casa da mãe, o cheiro de pão fresco, o riso dos irmãos correndo pelo quintal. Às vezes, lembrava também dos silêncios — aqueles que doíam, mas que a ensinaram a ser mais forte.

Sentada ali, entre o canto dos pássaros e o perfume do café, percebia que a vida era feita desses instantes. Pequenos, quase invisíveis, mas capazes de guardar o mundo inteiro dentro de si.

E assim, todas as manhãs, ela se vestia de memórias e esperanças, acreditando que o simples ato de observar os passarinhos podia ser, também, uma forma de renascer.

Silvia Santos

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Silvia Santos, em seu conto, utiliza o café como elemento sensorial, condutor de lembranças e introspecção. O conto celebra o cotidiano e a capacidade que temos de encontrar significados para a vida em pequenos gestos!

Lorde Égamo | 05/04/2026 ás 18:27
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