Meu coração é menino cansado
| Crônica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 19 de Maio de 2026 ás 16h 05min
Meu Coração é Menino Cansado
de Rosy Neves
Meu coração era um menino cansado navegando em alto-mar.
Trazia nos olhos um horizonte antigo, desses que parecem ter sido pintados por mãos invisíveis do destino. E, ainda assim, continuava remando contra as águas frias dessa triste ilusão chamada vida.
Havia noites em que o céu desabava inteiro sobre ele.
As estrelas pareciam lâmpadas apagadas por Deus, e o vento assoviava canções melancólicas entre as velas rasgadas da alma. O menino abraçava os próprios joelhos dentro do pequeno barco de silêncio e perguntava ao oceano se existir era apenas isso: sobreviver entre tempestades e naufrágios emocionais.
Mas o mar nunca respondia.
Somente as ondas vinham — lentas, profundas, eternas — como lembranças de amores perdidos em portos que nunca existiram de verdade. O menino então fechava os olhos e imaginava terras distantes onde a paz pudesse repousar como uma gaivota branca sobre as mãos humanas.
Às vezes, ele chorava escondido da lua.
Não porque fosse fraco, mas porque havia dentro dele uma ternura ferida demais para este mundo apressado. Seu coração ainda acreditava em milagres pequenos: um abraço sincero, uma palavra doce, um olhar capaz de salvar alguém da própria escuridão.
E talvez fosse exatamente isso que o tornava tão cansado.
A vida, com suas ruas frias e promessas quebradas, ensinava diariamente que sonhar demais é perigoso para quem possui alma sensível. Ainda assim, o menino continuava olhando o horizonte. Continuava esperando.
Porque certos corações, mesmo partidos, nascem com o estranho dom de florescer em meio aos naufrágios.
E naquela madrugada silenciosa, enquanto o barco vagava perdido entre névoas e estrelas adormecidas, o menino compreendeu algo: talvez viver não fosse encontrar terra firme… talvez viver fosse aprender a transformar tristeza em poesia enquanto o mar ainda ruge dentro de nós.