Minha Minas Gerais
Crônicas | 2025 - Leny Alves Silva e Convidados - Conquistando novo espaço | Manoel R. LeitePublicado em 11 de Janeiro de 2026 ás 12h 28min
Minas Gerais não se oferece de uma vez. Ela se revela. Quem chega esperando uma paisagem única encontra um mosaico. Quem espera um povo homogêneo descobre nuances. Quem imagina que Minas se resume ao barroco e ao café percebe, logo adiante, que há uma Minas inteira por dentro de cada Minas. Ainda assim, por mais diversa que pareça, ela tem um fio invisível que costura tudo: um modo próprio de existir, uma elegância discreta, uma firmeza mansa, como se o tempo ali tivesse aprendido a caminhar com sapatos macios para não acordar o passado.
Há uma história que não cabe em museu, embora esteja em muitos. Ela mora nas ladeiras de pedra que guardam passos antigos e nos sinos que conversam com o ar, sem pressa de explicar nada. Em algumas cidades, o ouro ainda brilha, não nas mãos, mas na memória — e memória, em Minas, é uma forma de arquitetura. O barroco não é só estilo: é uma maneira de dizer “fomos atravessados por um século e seguimos”, com anjos nas igrejas e sombras nas ruas estreitas. Também é a história dos que vieram depois, abrindo caminhos para além das montanhas, criando ofícios, escolas, letras, músicas, indústrias e roças; a história dos que insistiram quando o ciclo mudava, porque o mineiro tem esse talento de reinventar sem alarde, como quem muda a mobília de lugar e, quando você percebe, a casa ficou melhor.
A cultura mineira é um quintal grande com portas para muitos cômodos. Tem viola e tem piano, tem festa de rua e tem silêncio de biblioteca. Tem folia que atravessa estradas com bandeiras e cantorias, e tem procissão que parece ensinar ao corpo a arte de caminhar em conjunto. Tem o congado, que mistura devoção e resistência, batendo no chão como quem lembra que fé também é história viva. Tem o artesanato que transforma tecido, madeira, barro e pedra em identidade palpável. E tem, sobretudo, um jeito de contar as coisas: o mineiro não narra apenas o fato, ele espalha sinais, deixa brechas, convida a pessoa a completar com a própria sensibilidade. Talvez seja por isso que a literatura, o humor e a música encontrem ali um terreno tão fértil — Minas é feita de entrelinhas.
E o povo… ah, o povo é o principal patrimônio. Não falo daquela ideia romântica e simplificada de “povo bom” como se isso bastasse, mas de um povo complexo e afetuoso, desconfiado e generoso, como quem aprendeu que abrir a porta exige prudência, mas manter a porta fechada demais endurece a vida. Há um tipo de acolhimento mineiro que não é espetáculo: é prática. Ele aparece num café oferecido sem cerimônia, no “chega mais” dito com o corpo, no prato servido um pouco acima do necessário, porque “vai que você repete”. E aparece também na conversa mansa que, de repente, revela profundidade. O mineiro fala baixo, mas pensa alto. Às vezes demora a confiar, mas, quando confia, vira família.
Minas é paisagem em movimento. Montanha não é apenas relevo; é sensação. As serras parecem costelas antigas sustentando o céu, e as estradas sinuosas ensinam, na prática, que chegar é um processo, não um salto. Há lugares em que o verde se espalha com delicadeza e outros em que o campo se abre em dourado, com um vento que faz a vegetação ondular como se o chão respirasse. Há o frio que exige casaco e o calor que pede sombra. Há cachoeiras escondidas como segredo bem guardado e mirantes que oferecem o horizonte como presente. E mesmo quando o cenário muda — de uma cidade grande, acelerada, para um vilarejo com passos lentos — o espírito permanece: a paisagem externa parece sempre conversar com a paisagem interna. Minas é geografia e, ao mesmo tempo, temperamento.
A produção mineira tem o rosto do trabalho. Da mineração histórica — com todos os seus contrastes, riquezas e feridas — às fazendas e plantações que sustentam parte do país, há uma economia que carrega marcas de persistência. O café, por exemplo, não é só produto; é rito: plantar, colher, secar, torrar, servir. O leite vira queijo e o queijo vira símbolo, mas também vira sustento de famílias inteiras. Há a força do agronegócio em várias regiões, há a indústria que pulsou e pulsa, há o comércio que cresce e se adapta, há os pequenos produtores que fazem do cuidado um diferencial, e há um empreendedorismo mineiro que mistura estratégia com paciência: cresce devagar, mas cresce firme, como árvore de raiz profunda. Em Minas, muitas conquistas nascem no cotidiano, não na propaganda. E, quando o cansaço bate, ou mesmo a alegria assinala a cachaça se faz calor, se faz companhia e se faz arte.
A culinária é uma linguagem própria, uma gramática do afeto. É comida que consola, que reúne, que comemora e que cura cansaço. Tem o feijão tropeiro que carrega estrada, tem o frango com quiabo que carrega casa, tem o angu que carrega simplicidade, tem o torresmo que faz festa no prato, tem o doce que não pede permissão para ser lembrança. O pão de queijo — tão repetido que quase vira clichê — ainda assim consegue ser verdadeiro: ele é Minas numa mordida, com o cheiro que invade a casa e a textura que faz o tempo desacelerar. Não é só o prato; é o modo de servir. Em muitas mesas mineiras, a comida chega como quem diz: “você está seguro aqui”. Comer, em Minas, é também ser recebido.
O curioso é perceber que toda essa diversidade — história barroca e cidade moderna, roça e indústria, serra e planície, festa e recolhimento — encontra uma unidade que não precisa de esforço para existir. É como se Minas possuísse um “acordo” silencioso entre suas partes. Uma harmonia feita de discrição, de cuidado com o essencial, de respeito ao ritmo das coisas. A mesma pessoa que se emociona com a cantoria de uma festa popular se emociona com a vista de uma serra no fim da tarde. O mesmo povo que constrói progresso sabe preservar tradição. O mesmo lugar que produz em escala também cultiva delicadezas.
Talvez por isso Minas combine tanto com a ideia de “conquistar novo espaço”. Porque Minas ensina que espaço não é só território: é possibilidade. Conquistar novo espaço é abrir estrada sem destruir a paisagem. É crescer sem perder o senso de pertencimento. É avançar sem esquecer de onde se veio. Minas, com seus cenários múltiplos e seu coração uno, lembra que a expansão verdadeira acontece quando a gente carrega junto o que nos sustenta: memória, trabalho, cultura e afeto.
No fim, Minas é como aquelas conversas que começam simples e, quando a gente percebe, já tocaram assuntos profundos. Você chega por um motivo — turismo, trabalho, curiosidade — e sai com algo que não sabe explicar direito, mas sente. Um tipo de calma, um tipo de força, um tipo de beleza que não grita. Minas não precisa gritar. Ela conquista. E quando conquista, não toma espaço de ninguém: ela amplia o espaço de quem passa por ela.