No coração do samba

Contos | 2025 - Antologia Adailton Lima e Convidados - Fragmentos Poéticos | Manoel R. Leite
Publicado em 10 de Janeiro de 2026 ás 20h 43min

A roda começava sempre do mesmo jeito: um pandeiro chamando o outro, o cavaquinho afinado às pressas, alguém batendo palma fora do tempo até acertar. Não havia convite formal nem anúncio. O samba simplesmente acontecia.

Observava de fora — como sempre. Não participava da roda, mas conhecia cada gesto, cada olhar que se repetia ali semana após semana. Aquele era um território próprio, onde histórias se cruzavam sem precisar de sobrenome, currículo ou passado explicado.

— Chegou cedo hoje, disse Zeca, ajeitando o chapéu de palha enquanto esticava o couro do pandeiro.

— Cedo nada, respondeu Davi, sentando-se com o violão. É que hoje eu precisava chegar antes da saudade.

Zeca riu, aquele riso curto de quem entende mais do que pergunta.

A roda crescia aos poucos. Chegavam corpos cansados do trabalho, vozes roucas do dia inteiro caladas, corações cheios de coisas que não cabiam em conversa comum. O samba fazia esse favor: organizava o que estava bagunçado por dentro.

Lúcia apareceu sem avisar, como quase sempre. Vestia um vestido simples, mas carregava nos olhos uma intensidade que ninguém ignorava. Sentou-se perto de Davi. Não disse nada. Ele percebeu. Sempre percebia.

— Vai pedir nossa música ou vai ficar fingindo que não me viu? - ela provocou.

— Tem música que a gente não pede - respondeu ele, sem olhar diretamente. _ Ela vem quando quer.

Lúcia cruzou as pernas, sorriu de canto. Aquela história entre os dois nunca teve nome. Era feita de encontros interrompidos, promessas silenciosas e despedidas sem drama. No samba, eles se entendiam melhor do que fora dele.

Os de fora um pouco mais atento notavam. Algumas pessoas só sabiam existir plenamente ali, entre um refrão e outro.

— Essa é pra quem já foi - anunciou alguém do fundo da roda.

Não importava para quem era. Cada um dedicava à própria ausência.

Entre um samba e outro, surgiam histórias. Curtas, fragmentadas, como tudo naquele espaço.

— Perdi o emprego hoje - disse Jonas, sem abaixar a cabeça.

— Então canta mais alto - respondeu Zeca. _ Aqui ninguém fica desempregado de sentimento.

Risos. Palmas. O samba seguiu.

Havia também desencontros. Gente que sentava longe demais de quem amava. Gente que chegava tarde demais. Gente que ia embora cedo demais, com medo de sentir mais do que devia.

Ana apareceu uma vez, ficou duas músicas e saiu. Ninguém perguntou o motivo. No samba, respeitava-se o tempo de cada um. Ela vinha só para ver se ainda doía. Doía menos a cada semana.

— O samba cura? - perguntou um rapaz novo, afinando o tantã.

— Não. - respondeu Lúcia. _ Mas ensina a conviver com a dor. E isso basta.

A madrugada avançava. O chão estava sujo de copos descartáveis, o ar carregado de fumaça. O samba já não era apenas música — era memória sendo construída em tempo real.

Davi e Lúcia se olharam de novo. Não falaram nada. O silêncio entre eles era antigo, confortável, cheio de coisas não resolvidas que já não exigiam solução.

— Você vai sumir de novo? - ele perguntou, enfim.

— Eu nunca sumi - respondeu ela. _Só não fiquei.

Ele assentiu. Não cobrava permanência. Só presença.

Quando a roda começou a se desfazer, não houve despedidas longas. Cada um recolheu seus fragmentos: um verso, um abraço, um sorriso, uma lembrança que talvez doesse menos no dia seguinte.

Viu-se o último pandeiro ser guardado, o último banco arrastado, o último olhar trocado antes do portão se fechar.

No coração do samba, ficavam as histórias que não seriam contadas fora dali. Vidas que se tocaram por algumas canções. Amores que não se realizaram, mas existiram. Dores que não se curaram, mas aprenderam a sambar.

E, na semana seguinte, tudo recomeçaria.

Porque enquanto houver gente tentando sobreviver aos próprios dias, o samba continuará sendo esse lugar onde a vida, mesmo fragmentada, ainda encontra ritmo para seguir.

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