No fim do outono
Outono | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 11 de Fevereiro de 2026 ás 20h 19min
O ar denso de outono me abraça
Com um frio que não é apenas do vento.
As folhas caem, sussurros secos
No pavimento úmido da estação.
Estou aqui, no limiar de algo,
Uma estação de cores desbotadas,
Onde o verde cede ao ouro pálido,
E depois ao marrom da despedida.
Esta estação parece um grande salão,
Uma estação central de almas em trânsito.
Vejo vultos tênues nas bordas da visão,
Silhuetas que a neblina tece e desfaz.
As almas frias. Elas não têm pressa.
Seus passos não fazem eco nos trilhos.
Esperam na sombra das marquises de vidro,
Olhando para trens que nunca chegam.
Eu também espero, sem saber o destino,
A passagem que perdemos na correria do verão.
O cheiro de terra molhada e de fumaça antiga
Envolve meu casaco fino demais.
A luz é baixa, um amarelo doente,
Filtrada pelas nuvens pesadas do norte.
Cada banco parece um pequeno túmulo,
Um lugar onde o calor se rendeu primeiro.
Perguntas flutuam como a fumaça dos escapamentos:
Para onde vão estes viajantes silenciosos?
Carregam malas leves, cheias de arrependimentos?
Ou talvez apenas o peso do silêncio?
Eu me movo entre eles, um corpo quente
Em meio a espectros que aceitaram o gelo.
Sinto a lentidão da aceitação geral,
A paz estranha de quem já não luta contra a maré.
A estação outonal é um purgatório suave,
Onde a vida desacelera para ouvir o que não foi dito.
As almas frias descansam da febre da existência,
Encontrando no frio uma espécie de conforto mudo.
E eu, perdida, aprendo a respirar este ar pesado,
A desaprender a urgência, a abraçar o cinza.
Talvez ficar aqui, nesta plataforma fria,
Seja, por um tempo, o único caminho certo.
Observo a última folha, teimosa, agarrada ao galho,
Antes de juntar-se à vasta tapeçaria do chão.
E percebo que o descanso prometido
Não é um lugar, mas uma forma de parar de procurar.