Nos ombros do mundo
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 16 de Outubro de 2026 ás 14h 32min
Nos Ombros do Mundo
Rosy Neves
O arcanjo ainda chora
nos ombros cansados do mundo,
com uma asa sobre a aurora
e outra escondida no fundo.
Chora por quem vai embora
sem sequer dizer adeus,
por toda a noite que demora
a devolver-nos os céus.
Na viela, a guitarra
geme baixinho o destino,
e a lua, triste e bizarra,
beija o rosto do menino.
Há um silêncio à janela,
há saudade no coração,
e uma sombra, fina e bela,
dança com a solidão.
O arcanjo ainda chora,
não por si, nem pelo fim,
mas pela voz que se implora
quando o amor diz: "fica em mim".
E enquanto a noite se desfaz
sobre o Tejo adormecido,
ele guarda a pouca paz
de cada sonho perdido.
Amanhã, talvez, desperte
um sol novo sobre o cais,
mas há dores que a morte
não leva e o tempo não desfaz.
O arcanjo ainda chora
nos ombros do mundo inteiro.
E eu canto, pela demora,
o fado do derradeiro.