O Agricultor e o Dono da Chuva
Crônica | Rose CorreiaPublicado em 14 de Fevereiro de 2026 ás 11h 27min
Sinopse: Ao pedir chuva na medida do próprio desejo, um agricultor acredita ter garantido sua colheita. Mas, ao esquecer do sol e do vento, aprende que a vida só floresce em equilíbrio.
Uma parábola sobre humildade, aprendizado e confiança na harmonia do universo.
O Agricultor e o Dono da Chuva
Era uma vez um agricultor que vivia lavrando sua terra e lançando sementes sobre ela. Elas brotavam lindas e viçosas, e o agricultor, satisfeito, enchia seus tonéis.
Ainda assim, ficava contrariado quando a chuva seguia para outros horizontes, pois precisava regar outras lavouras.
O agricultor, porém, não compreendia isso.
Foi então reclamar com o dono da chuva:
— Não seria nada ruim se chovesse um dia sim, outro não… talvez de três em três dias. Quando não chove, minha colheita se torna escassa.
O dono da chuva respondeu:
— Pensas que és somente tu que vive do que planta? Olha ao redor: consegues enxergar a extensão do horizonte?
Mas o agricultor tapou os ouvidos e insistiu tanto que acabou obtendo o que queria.
Esqueceu-se, porém, de pedir o sol e o vento.
Voltou para casa sorrindo como um menino. Ao chegar, já chovia. Aguardou a chuva cessar, correu ao campo, lavrou a terra e lançou as sementes. Depois retornou para casa e descansou.
A noite veio, fiel ao seu ciclo, lembrando que o mundo continua seu curso, mesmo quando os homens tentam alterá-lo.
E os dias passaram a repetir-se, marcados pela chuva que retornava de três em três dias, como se cumprisse um acordo silencioso.
Entretanto, o sol e o vento haviam desviado a rota.
As sementes germinaram, mas cresceram pálidas e frágeis. Sem o sol, não realizavam a fotossíntese que transforma luz em alimento e sustenta a vida. Faltava-lhes o vigor que só a claridade concede.
Sem o vento, o pólen não se espalhava, as flores não se encontravam e as sementes não aprendiam a viajar. Não havia polinização nem dispersão — apenas permanência.
Erguiam-se da terra como quem busca algo no alto, mas o céu permanecia fechado.
Ainda assim, o agricultor acreditava que, a qualquer momento, o campo mudaria de cor.
Dia após dia, saía ao amanhecer e contemplava a lavoura em silêncio. Percorria cada fileira com os olhos, procurando o primeiro sinal de amadurecimento — uma tonalidade mais intensa, uma flor que anunciasse promessa, qualquer indício de que o ouro estivesse prestes a surgir.
Mas o verde não se transformava.
Esperava campos dourados; encontrou folhas murchas e grãos vazios.
Fitou a plantação por longos instantes, como se buscasse resposta na própria terra. Pensou. Procurou dentro de si alguma explicação. Nada encontrou além do silêncio.
Então compreendeu que precisava voltar — não para exigir, mas para entender.
Com o coração apertado, retornou à casa do dono da chuva.
Desta vez, não reclamou. Apenas perguntou:
— Onde estão o sol e o vento?
O dono respondeu com mansidão:
— Pediste chuva como se ela bastasse. Mas a vida não floresce com um único elemento. A chuva sustenta, o sol alimenta, o vento espalha. O que faz crescer também desafia. O que amadurece também movimenta.
O agricultor, enfim, destapou os ouvidos.
Baixou a cabeça, envergonhado por ter pensado apenas em si. Reconheceu que, na pressa de colher, esquecera-se da harmonia do céu.
— Perdoa-me — disse com humildade. — Pedi pouco quando pensei que pedia muito.
Houve silêncio.
E naquele silêncio compreendeu que fora ouvido.
O dono da chuva nada precisou dizer; sua presença mansa bastou para que o perdão fosse aceito.
O agricultor agradeceu — pela chuva, pelo sol, pelo vento e pela lição aprendida. Agradeceu até pelo erro, que lhe abrira os olhos.
Quando saiu dali, sentia-se diferente. O peso que carregava no peito já não estava ali.
Saiu revigorado, como quem descobre que não caminha sozinho. O horizonte parecia mais amplo, o céu mais alto, o vento mais vivo.
Naquele dia entendeu que não era apenas sua lavoura que dependia do equilíbrio do céu.
Cada campo, cada semente, cada ser vivo participa da mesma harmonia invisível que sustenta a vida.
Porque crescer não é apenas ser regado.
É receber a luz, enfrentar o vento e aceitar o tempo.
E, mais leve e mais sábio, passou a olhar o horizonte não como quem exige —
mas como quem confia.
Moral: Quem busca apenas o que lhe agrada perde a harmonia que o sustenta.