O Altar dos Sentidos: Onde Freud e Dostoiévski se Encontram para o Café
Ensaios | | Luciana KelmPublicado em 19 de Março de 2026 ás 20h 58min
Depois dos quarenta, a vida nos impõe uma pergunta silenciosa: onde reside a nossa verdade? Para quem, como eu, mergulha nos abismos da alma através da psicanálise, a resposta não está nos excessos, mas na delicadeza de um rito. O conforto real é uma construção subjetiva; é o momento em que paramos de fugir de nós mesmos para nos encontrarmos em um altar de simplicidade.
Sigmund Freud, minha grande paixão, certa vez nos lembrou que "o homem é dono do que cala e escravo do que fala". No silêncio de uma casa banhada por uma luz suave, onde o único som é o folhear de um livro, deixamos de ser escravos das demandas externas. Ali, no aconchego do nosso templo, o Eu se reorienta. É o que o mestre chamaria de um retorno ao prazer que não passa pelo ego, mas pelo acolhimento das nossas próprias pulsões de vida.
Nesse cenário, Fiódor Dostoiévski surge como o contraponto necessário. Ele, que tão bem descreveu as angústias do espírito humano, também nos ensinou que "a beleza salvará o mundo". E que beleza seria mais salvadora do que o cheirinho de um café passado e a manteiga derretendo no pão quente? Há uma redenção quase espiritual em um bolo de fubá com goiabada saindo do forno, ou naquele perfume cítrico de uma calda de laranja que envolve a casa. É a "beleza das pequenas coisas" que mantém a nossa sanidade.
Alimentar a mente com literatura e o corpo com afeto é o maior luxo que podemos conquistar. Ter a liberdade de escolher o que gostamos e apenas o que gostamos, é a prova de que a nossa subjetividade está sendo respeitada. Nossa casa, decorada com a nossa identidade, é a materialização do nosso psiquismo em paz.
Desejo, sinceramente, que um dia você sinta essa paz: o coração quentinho, um livro de Dostoiévski nas mãos e a certeza freudiana de que, finalmente, você se deu a devida importância. Que você descubra que a felicidade não é um destino, mas o aroma de um bolo que perfuma a alma enquanto o mundo lá fora, por um instante, silencia.