O arcanjo de olhos nebulosos
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 13 de Maio de 2026 ás 16h 28min
O Arcanjo de Olhos Nebulosos
de Rosy Neves
Ó meu Deus! Porque eu olhei
para o arcanjo de olhos nebulosos,
uma fúria da noite.
Eu devia ter fechado os meus olhos.
Devia ter virado o rosto,
esquecido a imagem,
o instante que me prendeu.
Mas os meus olhos,
teimosos e curiosos,
ficaram presos.
Presos na névoa que dançava
naquelas profundezas incomuns.
Não eram olhos de homem,
nem de anjo que se conhece,
cantando louvores sob o sol.
Eram olhos que guardavam
tempestades silenciosas,
estrelas cadentes esmagadas,
o vácuo gelado do espaço
entre mundos que nunca se tocam.
E a fúria da noite,
não era um rugido,
um grito de guerra
ou a explosão de um vulcão.
Era algo mais profundo.
O silêncio denso
antes da tormenta,
o peso de tudo o que se esconde
nas sombras mais escuras,
nas noites sem lua.
Eu vi a força contida,
o poder que não precisava de demonstrar,
a inteligência antiga
que observava tudo,
e não se importava
com a minha pequena presença.
Era como olhar para o abismo
e ele olhar de volta,
sem medo, sem surpresa,
apenas com uma serenidade terrível,
uma sabedoria ancestral
que me fez sentir pequeno,
frágil,
mas estranhamente vivo.
Os contornos do seu rosto,
se é que tinha um rosto definido,
pareciam desfazer-se,
misturar-se com a escuridão que o rodeava.
Uma aura de mistério,
de perigo latente,
mas também de uma beleza sombria
que me puxava para mais perto,
contra a minha própria vontade.
Eu senti o frio
que emanava dele,
um frio que penetrava os ossos,
mas que também trazia
uma clareza surpreendente.
Como se a névoa nos seus olhos
fosse um véu,
que ao ser rasgado,
revelasse verdades duras,
mas necessárias.
Porque eu olhei.
E agora,
essa imagem,
essa sensação,
essa fúria silenciosa,
estão gravadas em mim.
Um lembrete eterno
do que existe para além
do que os nossos olhos
conseguem captar
na luz do dia.
Uma visão que me assombra,
mas que também me ensina.
E eu não sei se me arrependo,
ou se agradeço
por ter ousado olhar
para o arcanjo
de olhos nebulosos,
a fúria da noite.