O Bósforo da saudade
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 16 de Junho de 2026 ás 18h 56min
O Bósforo da Saudade
De Rosy Neves
Depois que o Rei adormeceu
nas sombras profundas da terra,
o mundo vestiu?se de silêncio,
e a primavera esqueceu o caminho das flores.
As fontes de mármore calaram seus cantos,
os jardins de romãs perderam o perfume,
e os minaretes, sob luas pálidas,
ergueram preces que o vento não levou.
Dentro de mim, a saudade é um Bósforo triste,
de águas escuras e lentas,
que leva e traz almas cansadas
no breu enevoado da noite sombrolenta.
Vejo embarcações de lembranças
deslizarem sem rumo entre as margens da memória;
nelas navegam os dias felizes,
vestidos de ouro, agora cobertos de cinza.
Ó meu Rei, que repousas além dos horizontes,
quem devolverá a chama aos lampiões do meu coração?
Quem abrirá as cortinas da aurora
sobre esta cidade feita de ausência?
As estrelas ainda pronunciam teu nome
nas cúpulas invisíveis do céu,
e cada constelação parece guardar
um fragmento do teu olhar sereno.
Mas a noite permanece longa.
E eu, sentada à beira desse Bósforo de saudade,
escuto as águas contarem tua história
em uma língua antiga de lágrimas e vento.
Pois desde que adormeceste nas sombras da terra,
tudo em mim virou solidão —
uma solidão tão vasta quanto o mar,
tão profunda quanto o amor que ficou.