O caderno que ninguém lê
| Conto | 2026/4 Antologia Breves narrativas do cotidiano: entre histórias e versos do dia a dia | Dolores FlorPublicado em 01 de Abril de 2026 ás 09h 32min
Todas as noites, depois que a casa se aquietava e o mundo parecia diminuir de tamanho, ela abria o mesmo caderno. Era um caderno simples, de capa azul já um pouco gasta nos cantos. Não havia nele promessas de livro, nem intenção de ser lido por alguém. Era apenas um lugar onde os dias podiam descansar.
Sentava-se à mesa perto da janela, onde a luz amarela da luminária criava um pequeno círculo de silêncio. Pegava a caneta e começava a escrever coisas pequenas: o cheiro do café da manhã, a forma como o vento havia mexido nas folhas da árvore da rua, a frase curiosa que ouviu no mercado, o modo como o céu se abriu em nuvens antes da chuva.
Às vezes escrevia apenas duas ou três linhas. Outras vezes, uma página inteira.
Não eram acontecimentos grandiosos. Eram pedaços do dia. Fragmentos de vida que talvez ninguém percebesse.
Certa noite escreveu sobre o riso de uma criança que passara correndo pela calçada. Noutra, sobre o silêncio estranho que a casa teve quando faltou energia por alguns minutos. Em outra página, descreveu a luz da tarde pousando sobre a mesa, como se o tempo tivesse decidido descansar ali também.
Ela nunca pensou em mostrar aquele caderno a alguém.
Nem imaginava que aquilo fosse literatura.
Para ela, era apenas uma maneira de guardar o que o dia quase levava embora.
Com o tempo, o caderno começou a engrossar de páginas escritas. Ali estavam manhãs, tardes, pequenas inquietações, instantes de alegria, pensamentos que surgiam sem aviso. Era como se cada linha fosse uma prova silenciosa de que aquele dia tinha realmente existido.
Às vezes ela fechava o caderno e ficava olhando para ele por alguns segundos, como quem contempla um objeto comum que, sem perceber, se tornou importante.
Talvez ninguém jamais lesse aquelas palavras.
Talvez, quando os anos passassem, o caderno ficasse esquecido em alguma gaveta.
Mas isso nunca a preocupou.
Porque, enquanto escrevia, sentia algo muito simples e muito profundo ao mesmo tempo: cada frase era uma forma de permanecer no mundo.
E assim, noite após noite, enquanto todos dormiam, ela continuava escrevendo.
Não para ser lembrada.
Mas para não deixar a vida passar sem deixar vestígios.