O CHEIRO DO CAFÉ DA MINHA AVÓ

| Narratica | 2025 - Antologia Djordana Cecilia Bombarda e Convidados | Edson Bento
Publicado em 07 de Outubro de 2026 ás 10h 58min

O CHEIRO DO CAFÉ DA MINHA AVÓ

 

O café da minha avó não era bebida. Era da hora.

Começava antes da água ferver, quando ela empurrava a porta da cozinha ainda escura e o chinelo arrastado marcava o primeiro relógio da casa.

Eu não lembro o rosto dela acordando. Lembro as mãos. Uma medida de pó, três dedos de açúcar, e o coador de pano marrom de tantos cafés, que nunca mais ficou branco.

O cheiro não era de café. Era de aconchego, casa segura.

Era o cheiro que dizia: pode levantar, o mundo lá fora continua complicado, mas aqui dentro já tem fogo aceso. Alguém pensou em você antes de você abrir o olho.

Hoje tenho máquina, cápsula, café com nome chique. Tudo mentira. Porque o café dela tinha gosto de xícara lascada na beirada, onde a boca encostava. Tinha gosto de pão dormido esquentado na chapa. Tinha gosto de "espera esfriar, menino".

Ela foi embora. A cozinha foi derrubada. O coador sumiu.

Mas tem manhã, como hoje, em que o vento entra pela janela da minha cozinha moderna e traz aquele cheiro de volta. Não vem da rua. Vem da memória.

Eu nunca mais tomei o café da minha avó. Mas nunca passei um dia sem sentir o cheiro dele.

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