O Fio Invisível

Entre o que parte
e o que fica,
há um fio invisível
que nos sustenta.

Não é feito de certezas,
nem de promessas.
É tecido de gestos pequenos,
de silêncios que não doem,
de memórias que acendem luz
onde o tempo escurece.

Partimos um pouco a cada dia:
no adeus que não dizemos,
no abraço que dura menos,
na palavra que fica presa
entre a garganta e o coração.

Mas permanecemos também:
no café que aquece as manhãs,
no olhar que reconhece,
na varanda onde o mundo cabe
em duas cadeiras e um respiro.

Somos metade inteira,
metade partida—
e é nessa contradição
que a vida encontra forma.

O amor não nos salva do quebranto,
mas nos ensina a recolher os cacos
com mãos pacientes,
a colar o que pode,
a aceitar o que não volta.

No fim, não há conclusão,
há caminho:
um passo depois do outro,
um nome dito com cuidado,
um banco que resiste à chuva,
uma chave que já não abre portas
e ainda assim abre lembranças.

Entre a partida e a permanência,
escolho ficar no intervalo:
onde o que se quebra
revela o que permanece,
onde o que falta
mostra o que somos.

E se a vida é feita de fragmentos,
que cada pedaço carregue
um pouco de luz—
para que, mesmo partidos,
sigamos inteiros
no que importa.

Silvia Santos

Livro: Metade Inteira, Metade Partida: Contos, crônicas, cartas, poemas e histórias de quem vive em pedaços e plenitudes

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