O guarda-chuva amarelo

| | 2026/10 Antologia Era uma vez uma palavra | Manoel R. Leite
Publicado em 04 de Novembro de 2026 ás 11h 00min

Naquela manhã, acordei com a chuva batendo na janela do meu quarto. As gotas escorriam pelo vidro, umas apressadas, outras tão devagar que pareciam disputar quem chegaria por último. Meu nome é Elisa, tenho oito anos e gosto de descobrir coisas que ninguém percebe. Minha mãe diz que sou curiosa demais. Eu prefiro dizer que algumas perguntas simplesmente não me deixam em paz.

Quando cheguei à escola, encontrei um guarda-chuva amarelo aberto no meio do pátio. Era grande, redondo e tão amarelo que parecia um pedaço de sol esquecido debaixo da chuva. O mais estranho era que ninguém estava perto dele. Crianças atravessavam o corredor, professores corriam para não molhar os sapatos e o porteiro tentava impedir que uma poça invadisse a entrada. Só o guarda-chuva permanecia ali, imóvel, recebendo toda aquela água sem reclamar.

Parei alguns segundos para observá-lo. Talvez alguém tivesse entrado na sala com tanta pressa que esquecera o próprio guarda-chuva. Mas quem esqueceria uma coisa tão grande e tão amarela? Pensei em levá-lo até a secretaria, porém o sinal tocou antes que eu decidisse o que fazer. Durante a primeira aula, minha cabeça ficou cheia de contas de matemática e perguntas sobre guarda-chuvas. Resolvi as contas primeiro. As perguntas continuaram.

No recreio, corri para o pátio. O guarda-chuva tinha desaparecido! Procurei perto do portão, debaixo da escada e atrás das plantas. Finalmente, encontrei-o ao lado do banco azul, ainda aberto, com pequenas gotas escorrendo pelas pontas. Aquilo era muito esquisito. Guarda-chuvas não possuem pernas sozinhos. Pelo menos, nenhum dos que eu conhecia.

Perguntei a Pedro, meu colega de turma, se tinha visto alguém carregá-lo.

_ Eu vi um guarda-chuva amarelo ontem na televisão - respondeu ele.

— Estou falando deste aqui, Pedro!

— Ah, esse não.

Minha investigação não começou muito bem.

Perguntei à moça da cantina, ao porteiro e a três meninas do quinto ano. Ninguém sabia de quem era. O porteiro até comentou que, se o dono não aparecesse, talvez fosse melhor guardá-lo entre os objetos perdidos. Mas o guarda-chuva continuava mudando de lugar.

Depois do recreio, encontrei-o perto da biblioteca, encostado na parede. Agora estava fechado, com o cabo curvo voltado para a janela. Fiquei examinando o chão e descobri pequenas marcas de água que seguiam pelo corredor. Algumas terminavam perto da porta da sala de leitura. Outras desapareciam onde os alunos tinham passado com seus sapatos molhados.

Por um instante, imaginei um guarda-chuva passeando pela escola quando ninguém olhava. Achei graça da ideia, mas não consegui rir muito. Havia uma explicação, e eu estava decidida a encontrá-la.

Foi quando percebi uma menina sentada no último banco do corredor. Ela tinha cabelos escuros, uma blusa lilás e segurava um livro fechado sobre os joelhos. Eu já a vira algumas vezes na escola, embora nunca tivéssemos conversado. Sabia apenas que se chamava Lila e estudava na turma ao lado.

Enquanto os outros alunos brincavam, Lila observava a chuva pela janela. Às vezes, olhava discretamente para o guarda-chuva amarelo. Aproximei-me.

— Oi! Você sabe de quem é aquele guarda-chuva?

Ela ergueu os olhos, surpresa.

— Sei.

Esperei que continuasse, mas Lila permaneceu em silêncio.

— Então, de quem é?

— Meu.

Confesso que fiquei um pouco decepcionada. Depois de tanta investigação, esperava uma resposta mais emocionante. Talvez um guarda-chuva perdido durante uma aventura ou esquecido por alguém muito misterioso. Mas era apenas o guarda-chuva de uma menina da escola.

— Por que você deixa ele por aí? — perguntei.

Lila passou os dedos pela capa do livro.

— Não deixo. Eu levo comigo.

— Mas ele estava no meio do pátio!

— Eu tinha ido buscar minha mochila.

— E depois apareceu perto do banco azul.

— Fiquei sentada lá durante o recreio.

Olhei novamente para o guarda-chuva. De repente, seus passeios pela escola perderam todo o mistério.

— E por que você não brinca com as outras crianças?

Lila demorou um pouco para responder.

— Às vezes, eu quero. Mas não sei muito bem como chegar perto.

Sentei-me ao lado dela. Durante alguns segundos, ouvimos a chuva bater nas telhas. Um passarinho saltitou pelo corredor, sacudiu as penas molhadas e desapareceu entre os galhos de uma árvore.

— Eu também não sei fazer algumas coisas — comentei. — Não consigo assobiar com os dedos, por exemplo. Meu pai tentou me ensinar umas vinte vezes. Só consegui cuspir na própria mão.

Lila soltou uma risadinha. Foi tão inesperada que acabei rindo também.

— Eu sei assobiar — contou ela.

— Com os dedos?

Ela assentiu.

— Então você precisa me ensinar!

Lila colocou o livro sobre o banco, levou dois dedos à boca e soltou um assobio tão alto que o passarinho voltou a aparecer, assustado. Eu arregalei os olhos.

— Nossa! Você consegue chamar até passarinho!

Dessa vez, ela riu de verdade.

Quando o sinal anunciou o fim do recreio, levantei-me e apanhei minha mochila. Antes de sair, perguntei se Lila gostaria de brincar comigo no dia seguinte.

— Posso levar meu guarda-chuva?

Achei a pergunta engraçada.

— Claro! Mas, se não chover, vamos precisar inventar alguma coisa para fazer com ele.

Na manhã seguinte, o céu estava azul. Nenhuma nuvem ameaçava chuva. Mesmo assim, Lila apareceu no pátio com seu enorme guarda-chuva amarelo.

— Você trouxe! — exclamei.

— Trouxe. Pensei numa brincadeira.

Ela abriu o guarda-chuva e o apoiou cuidadosamente sobre a grama, perto de uma árvore. Depois retirou da mochila dois pequenos bonecos, um pedaço de tecido e algumas pedrinhas coloridas.

— Podemos construir uma casa — sugeriu.

Eu nunca tinha pensado que um guarda-chuva pudesse servir de telhado. Ajoelhei-me na grama e comecei a organizar as pedras ao redor. Em poucos minutos, nossa casa ganhou uma entrada, um jardim e uma sala onde os bonecos poderiam receber visitas.

Pedro apareceu primeiro.

— O que vocês estão fazendo?

— Uma casa — respondi.

— Posso brincar?

Lila olhou para mim. Dei de ombros e sorri.

— Pode, mas precisamos de um portão.

Pedro correu até uma árvore e voltou com dois gravetos. Logo chegaram outras crianças. Uma trouxe folhas para o jardim; outra sugeriu construir uma ponte. Alguém decidiu que a casa precisava de um cachorro, embora ninguém tivesse levado um boneco de cachorro. Resolvemos usar uma pinha. Nossa construção ficou torta, apertada e um pouco esquisita. O cachorro de pinha era maior que os moradores, e a ponte terminava numa parede. Ainda assim, ninguém quis desmontá-la quando o sinal tocou.

Na saída, começou a chover novamente. Lila abriu seu guarda-chuva amarelo e ficou perto do portão, esperando a mãe. Eu estava com meu guarda-chuva vermelho de bolinhas brancas, aquele que sempre virava do avesso quando o vento soprava muito forte.

Aproximei-me dela e encostei meu guarda-chuva no seu.

— Amanhã você vai trazer a casa?

— Acho que vou precisar trazer o telhado inteiro — respondeu Lila.

Rimos enquanto a chuva escorria sobre nossas cabeças.

Naquela tarde, quando cheguei em casa, minha mãe perguntou o que eu tinha aprendido na escola. Contei sobre as contas de matemática, sobre um passarinho que não gostava de assobios e sobre uma casa construída com pedras, folhas e um guarda-chuva.

Depois fiquei pensando no que havia acontecido. Durante toda a manhã anterior, eu procurara o dono de um guarda-chuva. Perguntara a quase todo mundo, examinara pegadas molhadas e inventara explicações extraordinárias para um mistério bastante simples.

Mas, se aquele guarda-chuva não tivesse aparecido sozinho no pátio, talvez eu nunca tivesse conversado com Lila.

No dia seguinte, cheguei à escola um pouco mais cedo. A chuva tinha parado, e o pátio ainda guardava algumas poças da noite anterior. Lila já estava perto do banco azul, com seu guarda-chuva amarelo encostado na parede.

Quando me viu, levantou a mão e sorriu. Corri até ela, desviando das poças.

— Elisa! — chamou. — Trouxe uma coisa para nossa casa!

Abriu a mochila e mostrou uma pequena campainha dourada.

— Agora nossos visitantes poderão tocar antes de entrar.

Achei a ideia excelente. Só havia um problema: nossa casa ainda não tinha porta.

Sentamos no banco para resolver aquilo. Lila abriu seu caderno de desenhos e começou a traçar uma porta com duas janelas. Eu sugeri uma varanda, uma escada e um lugar para guardar bicicletas. Pedro chegou pouco depois e quis acrescentar uma garagem para foguetes. Quando o sinal tocou, ainda discutíamos onde colocar a campainha.

O guarda-chuva amarelo permaneceu encostado na parede durante toda a conversa. Dessa vez, ninguém precisou procurá-lo.

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