O INÍCIO QUE SÓ EXISTIU NO FINAL
| Crônica | 2025 - Antologia Eidi Martins e Convidados - A Voz dos Poetas | Jonathan Francieverton da SilvaPublicado em 14 de Junho de 2026 ás 12h 19min
A rua onde cresci era de terra vermelha, daquelas que pintam o pé da gente e a memória também. As casas eram baixas, cheias de plantas na frente e conversas nas calçadas ao fim da tarde. Foi ali, numa manhã de céu muito azul e mochila maior que o corpo, que conheci Sofia.
Ela estava sentada no meio-fio, chorando porque o cadarço do tênis tinha arrebentado e ela ia se atrasar para o primeiro dia de aula. Eu, com meus dez anos e uma coragem que nunca mais tive igual, sentei ao lado dela e disse que meu nó era “o mais forte do bairro”. Não era, mas segurou até o fim do dia. Sofia me agradeceu com um sorriso tímido, e ali começou a história mais importante da minha vida, mesmo que eu só tenha entendido isso tarde demais.
Viramos inseparáveis. Dividíamos o lanche, os segredos e a sombra da mesma mangueira depois da escola. Sofia falava pelos cotovelos; eu, quase nada. Ela sonhava alto, queria conhecer o mar, escrever livros, mudar de cidade. Eu sonhava pequeno, mas sonhava com ela em todos eles, mesmo quando não tinha coragem de admitir nem para mim.
Na adolescência, o mundo começou a olhar para Sofia como eu sempre olhei: com admiração. Ela ficou linda de um jeito leve, sem esforço. Eu virei o amigo de sempre, o que carregava a mochila, ouvia desabafos e dava conselhos sobre garotos que não eram eu. Cada vez que ela falava de alguém, eu concordava, sorria, fazia piada. Depois chegava em casa e ficava encarando o teto, ensaiando frases que nunca dizia.
No último ano da escola, quase contei. Estávamos na festa de formatura, sentados na escada dos fundos, fugindo do som alto. Ela apoiou a cabeça no meu ombro e disse:
— Você é meu lugar seguro, sabia?
Meu coração disparou. Era ali. Era a hora.
— Sofia, eu…
Ela levantou o rosto, esperando.
Eu ri. Disse que ela ia encontrar alguém incrível, que merecia o mundo. Fui covarde no momento exato em que a minha vida pedia coragem.
Depois disso, a vida correu. Sofia passou numa faculdade longe. Eu fiquei, comecei a trabalhar com meu pai. No começo, a gente se falava todo dia. Depois, toda semana. Depois, só curtidas em fotos e mensagens em datas importantes. Ainda assim, nenhuma noite eu dormia sem lembrar da menina do cadarço arrebentado.
Anos depois, recebi um convite de casamento. O nome dela ao lado de outro homem doeu, mas não me surpreendeu. Sofia sempre foi feita de futuro; eu, de passado. Mesmo assim, comprei uma camisa nova e decidi ir. Precisava ver com meus próprios olhos que ela estava feliz. Talvez assim eu conseguisse, finalmente, soltar.
Na véspera, quase não dormi. Escrevi uma carta que nunca tive coragem de escrever antes. Dobrei com cuidado e coloquei no bolso do paletó. Se surgisse a chance, eu entregaria. Não para impedir nada, só para que ela soubesse. Só isso.
Saí cedo de carro. A estrada estava molhada da chuva da madrugada, mas o céu já abria em claridade. Lembro de pensar que Sofia ia estar linda. Que eu ia sorrir, abraçar, desejar felicidade como um bom amigo faz. E depois, talvez, começar minha própria vida.
Não cheguei.
Um caminhão perdeu o controle numa curva. Dizem que foi rápido. Que eu não sofri. Gosto de acreditar nisso.
Sofia soube depois da cerimônia. Disseram que ela ficou em silêncio, ainda de vestido branco, segurando o buquê como se não soubesse onde colocar as mãos. Minha mãe entregou a carta dias depois.
“Eu te amei no cadarço do tênis, na mangueira da escola, na escada da formatura. Te amei em silêncio, em todas as versões da vida que não tive coragem de viver. Não é um pedido, nem um adeus. É só a verdade que você sempre mereceu saber.”
No canto da carta, a data do dia do casamento dela.
Gosto de imaginar que, por um segundo, ela lembrou do menino que prometeu fazer o nó mais forte do bairro, e que, no fim, só não soube desatar o próprio coração.