O jardim de hortências

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 27 de Maio de 2026 ás 07h 52min

O Jardim de Hortênsias

 

Vi um imenso jardim de hortênsias

nas planícies calmas da Holanda.

Era tão belo, tão perfeito e sereno,

que parecia não pertencer a este mundo,

como se ali fosse um pedaço de terra exilado da realidade.

 

A sombra e a luz entrelaçavam-se suavemente,

numa harmonia que parecia vir de uma eternidade antiga,

enquanto a névoa, branca e leve, descia mansamente

e se arrastava por entre as flores,

tal como um véu sagrado e transparente

que viesse cobrir, com doçura, os ombros frescos da manhã.

 

Pássaros vindos de todos os cantos da Terra,

de terras distantes e desconhecidas,

ali chegavam apenas para respirar e contemplar

a doçura e o perfume profundo daquelas flores.

E, ao vê-las, já não eram apenas flores terrenas —

eram poemas vivos e coloridos,

cânticos silenciosos e azuis

que desabrochavam para algo que existe para além do visível.

 

Borboletas errantes,

pequenas viajantes de asas luminosas e multicores,

bailavam sem pressa pelo ar parado,

desciam e beijavam, uma por uma,

as pétalas que pareciam ainda adormecidas em sonhos azuis.

 

Havia, no ar daquele jardim,

um segredo, um mistério suave e profundo

que nenhuma palavra humana seria capaz de nomear.

E os meus olhos, que tantas vezes são sombrios e cansados,

ficaram ali, parados e imóveis,

completamente naufragados de puro encanto,

diante daquele pedaço de paraíso

que claramente não era feito para as mãos nem para os olhos dos homens.

 

E talvez, na verdade, não pertencesse mesmo a este mundo.

Porque tudo o que eu via ali,

toda aquela beleza inatingível,

era apenas uma visão dolorosa e doce,

um sonho suspenso com muito cuidado,

prestes a desaparecer,

bem na beira do abismo da eternidade.

 

Eu estendi a mão, mas não podia tocar as flores.

Elas estavam longe, muito longe de mim,

ainda que estivessem tão perto aos meus olhos.

Longe como as estrelas que brilham no céu noturno,

longe como os grandes amores impossíveis,

longe como tudo aquilo que é divino:

nasce apenas para ser visto, para ser sentido,

e para nos ferir de uma beleza que dói na alma.

 

E foi então, naquele instante de pura clareza, que eu compreendi:

o jardim, na verdade, nunca existira de verdade.

Ele fora criado ali, diante de mim,

feito apenas e unicamente

de saudade,

de névoa

e de ilusão.

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