“O legado do tempo”
O tempo passava mesmo atento. Não fazia barulho, não anunciava chegada, mas nunca errava o passo. Entrava pela casa como quem conhece o caminho, retirava um pouco da energia da juventude e, em troca, deixava um baú pesado de ensinamentos no canto da alma.
Ela percebia isso diante do espelho. Cada ruga nova não lhe causava espanto. Era como reconhecer um capítulo vivido. Não via ali apenas sinais de cansaço, mas marcas de risos, de noites longas, de escolhas difíceis e de amores que ensinaram. O rosto tornara-se um mapa da própria história.
Com o passar dos anos, aprendeu a escutar mais do que falar. Descobriu que esperar também era um gesto de coragem. Antes, a pressa a fazia perder caminhos inteiros; agora, a paciência lhe devolvia sentidos. Coisas que antes pareciam urgentes tornaram-se pequenas, e o essencial passou a falar baixo.
Ela entendeu que a sabedoria não morava apenas nos livros empilhados nem nos pensamentos profundos das madrugadas insones. Estava nos passos contidos, no jeito de atravessar o dia sem atropelar sentimentos, no olhar atento às pessoas para às miudezas do mundo.
Houve dor, sim. O tempo não foi gentil. Mas, em vez de fugir dele, ela o abraçou. E nesse abraço, transformou a dor em firmamento, algo que sustentava em vez de pesar. O ontem deixou de ser saudade amarga e virou aprendizado.
Assim, sua vida tornou-se poesia. Não aquela escrita com pressa, mas a que se constrói verso por verso, com calma, respeito e verdade. Uma poesia que só o tempo, atento e silencioso, é capaz de ensinar.