O menino que conversava com o mar
Poemas | Narratica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 16 de Maio de 2026 ás 10h 19min
O Menino que Conversava com o Mar
de Rosy Neves
Dizem que havia um menino que conversava com o mar.
Todas as tardes ele caminhava sozinho até a praia, levando nos bolsos pequenas pedras, conchas partidas e silêncios. Sentava-se na areia úmida, bem perto das ondas, como quem aguardava a chegada de um velho amigo cansado de atravessar eternidades.
E o mar falava.
Não com palavras humanas — porque os mares desconhecem a língua dos homens —, mas em suspiros de espuma, em ventos salgados, em murmúrios que pareciam vir do fundo invisível do mundo.
O menino escutava.
Escutava como escutam aqueles que ainda não desaprenderam a sonhar.
Às vezes o mar lhe contava histórias de navios perdidos entre constelações, de marinheiros que dormiam dentro das estrelas, de luas antigas que caíram no oceano durante tempestades celestes.
Outras vezes, o mar apenas chorava.
E o menino compreendia aquelas lágrimas enormes quebrando-se nas pedras.
— Por que estás triste hoje? — perguntava ele, com os olhos cheios de compaixão.
Então vinha uma onda maior, beijando-lhe os pés descalços, como se o mar respondesse:
— Porque carrego saudades demais.
O menino abaixava a cabeça devagar.
Talvez porque também carregasse.
Havia noites em que ele permanecia ali até tarde, olhando o horizonte escuro, enquanto o céu derramava estrelas sobre as águas. Nessas horas, parecia que o universo inteiro respirava junto com o oceano.
E quem passava pela praia jurava vê-lo falando sozinho.
Mas não estava sozinho.
O mar reconhece os corações que sabem escutar.
Com o tempo, o menino cresceu. Seus olhos ficaram mais profundos, como se dentro deles morassem tempestades e luas afogadas. Porém nunca deixou de visitar a beira do mundo, onde as ondas vinham morrer mansamente.
Porque certas amizades são eternas.
E até hoje, quando o vento sopra diferente sobre as águas, os pescadores mais antigos fazem silêncio.
Dizem que é o mar procurando o menino outra vez.
Ou talvez seja apenas um menino invisível, ainda sentado na areia da infância, conversando baixinho com a eternidade.