Ó meu Deus, permita me

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 09 de Junho de 2026 ás 20h 57min

Ó Meu Deus, Permita-me 

de Rosy Neves

 

Ó meu Deus,

permita-me contemplar o rosto do Rei,

mesmo que seja por um instante breve

entre o fechar e o abrir das estrelas.

 

Dizem que ele dorme

onde os mapas se calam,

entre sonhos de areia e sal,

num mar subterrâneo

no fim da Turquia.

 

Ali, os ventos do antigo Bósforo

descem como anjos silenciosos,

levando cânticos esquecidos

para as profundezas da noite.

 

O Rei repousa.

Sobre seus olhos fechados

há dunas de luar,

e em sua respiração tranquila

balançam navios feitos de sonho.

 

Ó meu Deus,

permita-me chegar sem ruído,

como uma lágrima que atravessa o deserto,

como uma oração perdida

entre minaretes e constelações.

 

Não peço ouro,

não peço glória,

nem os jardins escondidos dos sultões.

Peço apenas contemplar o seu rosto.

 

Pois dizem que sua face guarda

a memória das primeiras auroras,

e que seus cabelos são rios escuros

onde navegam luas adormecidas.

 

Ele dorme...

Dorme entre areia e sal,

entre o mundo visível

e os mares secretos da alma.

 

E eu espero à beira desse silêncio,

com o coração curvado como um cipreste,

enquanto a noite derrama estrelas

sobre as águas subterrâneas.

 

Ó meu Deus,

se for tua vontade,

permita-me contemplar o rosto do Rei,

antes que o último vento da Turquia

apague minhas pegadas

nas areias eternas do sonho.

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