O navegante das estrelas

Poemas | Crônica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 16 de Maio de 2026 ás 10h 33min

O Navegante das Estrelas

 

de Rosy Neves

 

Dizem que ele não nasceu na Terra.

Veio deslizando silenciosamente por alguma corrente esquecida do universo, dentro de um barco feito de luz antiga e sonhos quebrados. Seus olhos carregavam o brilho cansado das constelações distantes, como se tivesse atravessado milhares de noites sem jamais encontrar descanso.

 

Todas as madrugadas, quando o mar dormia calmo e a lua derramava prata sobre as ondas, o velho navegante caminhava pela areia recolhendo conchinhas.

Mas não eram conchas comuns.

Eram pequenas luas partidas.

 

Encostava cada uma delas no peito, fechava os olhos e escutava. Dentro das conchinhas moravam vozes. Ecos de estrelas quase mortas. Sussurros de galáxias afundadas no tempo. Havia nelas uma música tão antiga que fazia o vento chorar devagarinho entre os coqueiros.

 

As crianças da vila perguntavam:

— Velho marinheiro, por que coleciona conchinhas?

Ele sorria com tristeza.

— Porque o céu também tem marés... e às vezes as estrelas naufragam.

 

Ninguém compreendia suas palavras.

Somente uma menina de cabelos cheios de vento acreditava nele. Sentava-se ao seu lado nas pedras molhadas e observava o horizonte, onde o céu parecia se costurar ao oceano.

 

Numa noite de tempestade, ela viu.

O mar inteiro começou a brilhar.

Milhares de pontos luminosos emergiram das águas escuras como peixes celestes. As conchinhas guardadas pelo navegante pulsavam em suas mãos, vivas como pequenos corações do infinito.

 

Então o velho ergueu os olhos para o céu e murmurou numa língua desconhecida.

As estrelas responderam.

Uma a uma, começaram a cair lentamente sobre o oceano, não como tragédia, mas como reencontro. E as ondas devolveram ao universo aquilo que haviam guardado durante séculos.

 

Na manhã seguinte, o navegante desapareceu.

Seu barco também.

Na areia restou apenas uma única conchinha azul-violeta, brilhando sob o sol nascente.

 

A menina a levou consigo.

E desde aquele dia, quando aproxima a concha do ouvido, não escuta o mar.

Escuta estrelas navegando na eternidade.

Comentários

Olá! Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies.