O navegante estranho
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 04 de Abril de 2026 ás 14h 41min
Todos os dias, antes mesmo do sol aprender a nascer, ele já estava de pé.
Havia um ritual — simples aos olhos de quem passa, sagrado para quem espera. Caminhava até a beira do mundo, onde o mar respirava diferente, mais profundo, mais antigo… como se guardasse memórias que não cabiam na terra. Ali, com mãos que já conheciam o gesto de cor, acendia os faróis.
Não eram faróis comuns. Não iluminavam apenas as águas — chamavam. Eram como vozes feitas de luz, acesas contra o esquecimento.
E ele esperava.
Diziam que era loucura. Que não havia rota naquela direção, que nenhum barco ousaria cruzar aquele oceano que, às vezes, parecia mais céu do que água. Mas ele sabia. Havia aprendido a escutar o silêncio entre as ondas, e nelas havia promessa.
O estranho navegante viria.
Às vezes o mar mudava. Não era revolto — era estranho. Como se dobrasse sobre si mesmo. Como se escondesse portas invisíveis. Nessas horas, o coração dele batia diferente, como quem reconhece passos antes mesmo de ouvi-los.
E então… nada.
Apenas o mesmo horizonte intacto, a mesma ausência vestida de azul infinito.
Mas ele nunca apagava os faróis.
Havia dias em que o cansaço vinha como maré pesada. Dias em que o mundo gritava coisas práticas: “Desista. Volte. Viva o que é possível.” Mas havia algo nele que não pertencia ao possível. Algo que também era oceano.
Certa noite — porque as noites eram mais sinceras — o vento trouxe um sussurro. Não de palavras, mas de presença. Ele acendeu os faróis com mais urgência, como quem responde a um chamado antigo.
E então viu.
Não claramente. Não como se vê um navio comum. Era mais uma forma do que um corpo, mais silêncio do que matéria. Um barco que parecia feito de ausência — e ainda assim, ali estava.
O estranho navegante.
Não acenou. Não falou. Apenas se aproximou o suficiente para que os faróis tocassem sua existência, como se a luz reconhecesse aquilo que os olhos não sabiam nomear.
E naquele instante, ele entendeu.
O oceano não era deste mundo — e talvez ele também não fosse.
Desde então, continuou acendendo os faróis.
Mas já não era espera.
Era encontro.
Comentários
Um conto esplêndido! Mui belo!
Lorde Égamo | 04/04/2026 ás 20:43