O ofício secreto dos versos.
| | 2026/07 Antologia Quando o verso pergunta | Isolti CossetinPublicado em 04 de Julho de 2026 ás 06h 21min
O ofício secreto dos versos.
Quando a tristeza me visita,
não encontro braços suficientes
para conter o transbordamento da alma.
Quando a aflição aperta o peito,
há silêncios que pesam mais
do que qualquer palavra.
Quando o desânimo me alcança,
o mundo continua girando,
como se não percebesse
que, dentro de mim,
alguma coisa perdeu o rumo.
Quando a alegria floresce,
também não sei onde colocá-la.
Há felicidades tão grandes
que não cabem na voz.
É então que procuro o papel.
Não porque ele saiba tudo.
Mas porque nunca me interrompe.
Nunca me julga.
Nunca me pede explicações.
Desabo sobre ele.
Não sobre o chão.
O chão apenas ampara o corpo.
O papel acolhe a alma.
Sobre sua brancura deposito
meus medos,
minhas saudades,
meus excessos,
minhas esperanças,
meus recomeços.
E, pouco a pouco,
aquilo que era tempestade
transforma-se em verso.
Curioso...
O papel jamais me perguntou
por que eu chorava.
Nunca quis saber
de onde vinha minha dor
ou o motivo do meu sorriso.
Ainda assim,
sempre me respondeu.
Respondeu-me com o silêncio
que me permitiu ouvir a mim mesma.
Respondeu-me oferecendo abrigo
às palavras que eu já não conseguia carregar.
Respondeu-me devolvendo, em poesia,
o que a vida havia espalhado
em pedaços dentro de mim.
Talvez seja esse
o ofício secreto dos versos.
Eles não fazem perguntas em voz alta.
Perguntam por dentro.
E, quando a alma finalmente responde,
o poema nasce.