O pirata e a conchinha
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 17 de Outubro de 2026 ás 05h 42min
O Pirata e a Conchinha
Rosy Neves
Há um pirata errante
em um navio que não é deste mundo,
singrando mares sem margens,
sob o silêncio de um céu moribundo.
Navega em constante batalha,
contra os ventos que ninguém vê,
com velas rasgadas de estrelas
e um destino que não sabe ler.
Seus olhos batavos, outrora em prantos,
guardam as ruínas de um tempo distante;
foram espelhos de lágrimas antigas,
hoje são faróis de um sonho errante.
Ó, pirata dos mares perdidos,
que tempestade te fez naufragar?
Que monstros habitam teus sonhos
quando a noite te ensina a chorar?
Escuta…
Não ouves uma estranha melodia
vinda de um coração tão pequeno?
É meu peito, tão pobre de abrigo,
que ainda canta, mesmo em seu degredo.
Sou apenas uma conchinha esquecida,
perdida no mar cósmico do infinito,
onde as estrelas são lágrimas caídas
e o silêncio é um lamento inaudito.
Quem me deixou nestas águas profundas?
Quem me arrancou do meu próprio lugar?
Por que trago o oceano inteiro na alma,
se mal tenho forças para navegar?
E tu, pirata de terras longínquas,
de olhar batavo, cansado de guerra,
será que escutarias meu canto
se o vento me levasse à tua terra?
Talvez nossas rotas se cruzem
numa dobra esquecida do firmamento;
teu navio, coberto de sombras,
minha concha, entregue ao relento.
E, por um instante, somente um instante,
cessariam as guerras no mar sem fronteira;
tu baixarias as velas ao vento,
eu deixaria de ser prisioneira.
Mas o infinito não faz promessas,
nem devolve os náufragos ao cais;
há amores que nascem nas névoas
e morrem sem se encontrarem jamais.
Por isso, navego em silêncio,
enquanto teu navio desaparece…
E a conchinha que sou, tão pequena,
guarda a canção que o universo esquece.
Ó, pirata errante, se ouvires meu peito,
quando a noite se abrir sobre o mar,
saberás que há uma alma pequena
que ainda não desistiu de cantar.