O presente que não era para mim

| | Manoel R. Leite
Publicado em 05 de Novembro de 2026 ás 13h 42min

O pacote estava no banco da praça, embrulhado em papel vermelho, com uma fita amarela e uma etiqueta que me fez esquecer até da bicicleta encostada na árvore. “Para quem encontrar primeiro.” Olhei ao redor, esperando que alguém aparecesse para reclamar o embrulho, mas ninguém parecia interessado. Era sábado de manhã, e a praça tinha apenas algumas crianças no parquinho, dois homens jogando xadrez e o vendedor de pipoca doce preparando seu carrinho. Aproximei-me do banco e li novamente a mensagem. Se eu tinha encontrado primeiro, o presente só podia ser meu.

Peguei o pacote com cuidado. Era pequeno, leve e não fazia nenhum barulho quando o movimentava. Imaginei um relógio digital, um brinquedo eletrônico ou alguma daquelas coisas que meus pais sempre prometiam comprar numa ocasião especial. Já procurava a ponta da fita quando descobri outra etiqueta escondida sob o laço. “Só poderá ficar com ele quem descobrir por que foi deixado aqui.” Aquilo não fazia sentido. Primeiro diziam que o presente era meu, depois inventavam uma condição. Examinei o embrulho, procurei alguma assinatura e até olhei para trás das árvores, desconfiado de que alguém estivesse acompanhando meus movimentos.

Resolvi começar pelo vendedor de pipoca, que costumava chegar antes de todo mundo. Ele contou que vira uma mulher com uma sacola de pano perto daquele banco, mas não prestara atenção no que ela fazia. A informação me deixou animado. Voltei à praça e perguntei a uma menina de tranças se ela sabia alguma coisa sobre o embrulho. Depois de ouvir minha história, sugeriu que poderia ser uma caça ao tesouro. Gostei da ideia, embora não tivesse encontrado nenhum mapa ou indicação de onde procurar. A menina ainda quis saber se poderia ficar com metade do prêmio caso me ajudasse. Respondi que primeiro precisávamos descobrir o que havia dentro.

Examinamos o banco e encontramos um pequeno coração azul desenhado na madeira, com duas letras quase apagadas: L e V. Minha nova ajudante achou que fossem as iniciais de uma senha. Tentei imaginar palavras que começassem com aquelas letras, mas nenhuma parecia combinar com um pacote vermelho. Ela logo desistiu da investigação quando o irmão a chamou para brincar. Fiquei sozinho, observando o coração, até ouvir uma voz perguntar se eu havia encontrado o presente.

Atrás de mim estava uma mulher de vestido verde, com uma sacola pendurada no ombro. Quando respondi que sim, ela quis saber se eu tinha aberto o embrulho. Expliquei que estava procurando pistas e mostrei o desenho na madeira. A mulher passou os dedos sobre o coração azul e sorriu. Contou que sua filha o fizera muitos anos antes, quando as duas costumavam passar as manhãs de sábado naquela praça. A menina sempre levava uma pequena caixinha de música, presente da avó, até que um dia a esqueceu naquele banco. Quando voltaram para buscá-la, a caixinha havia desaparecido.

— E nunca mais encontraram? — perguntei, aproximando o pacote.

— Encontrei na semana passada. Um funcionário da praça tinha guardado a caixinha junto de outros objetos esquecidos.

Olhei para o embrulho, desconfiado de que já sabia o que havia dentro. A mulher explicou que sua filha faria aniversário naquele sábado e que pretendia surpreendê-la no lugar onde perdera o presente. Tinha deixado o pacote sobre o banco enquanto observava de longe, esperando que alguém se interessasse pela mensagem. Perguntei por que não entregava a caixinha pessoalmente, e ela respondeu que desejava transformar a devolução numa pequena aventura. Reconheci que tinha conseguido, embora não gostasse muito da parte em que eu ficava sem presente.

A mulher percebeu minha expressão e perguntou se eu gostaria de ajudá-la. Antes que respondesse, apontou discretamente para uma moça de blusa branca que entrava na praça com um livro debaixo do braço. Segurei o pacote e caminhei até ela, tentando imaginar o que deveria dizer. Quando nos encontramos perto do banco, estendi o embrulho e expliquei que havia encontrado uma coisa que provavelmente lhe pertencia. A moça pareceu confusa, mas reconheceu a letra da mãe na etiqueta. Desamarrou a fita amarela, retirou o papel vermelho e ficou imóvel diante da pequena caixa de madeira.

Ao levantar a tampa, uma melodia delicada começou a tocar. A moça levou a mão à boca, olhou para a mãe e depois para o objeto, sem conseguir dizer nada. As duas se abraçaram, enquanto eu permanecia ao lado do banco, segurando o papel que tinha caído no chão. Quando finalmente se afastaram, a moça contou que costumava ouvir aquela música com a avó. Disse também que procurara a caixinha durante semanas e que, mesmo depois de crescer, nunca esquecera sua melodia.

— Foi você quem encontrou? — perguntou, voltando-se para mim.

Contei sobre as mensagens e a investigação, sem esquecer a menina que havia exigido metade do tesouro. A moça riu e quis saber se eu tinha ficado decepcionado ao descobrir que o presente não era meu. Confessei que sim, principalmente porque já tinha imaginado um brinquedo novo. Ela abriu espaço no banco e me convidou para ouvir a música inteira. Sentei-me ao seu lado, enquanto a mãe observava o movimento da praça. A melodia durou pouco, mas a moça deu corda novamente para que eu pudesse escutá-la desde o começo.

Antes de ir embora, ela mostrou uma fotografia de quando era pequena. Estava sentada naquele mesmo banco, com a caixinha no colo e um sorriso enorme. Reconheci o coração azul desenhado na madeira e descobri que as letras eram as iniciais de seu nome e do nome da avó. Depois, a mulher pegou o celular e tirou uma fotografia de nós três. A moça prometeu imprimir uma cópia para mim e perguntou se eu costumava visitar a praça aos sábados. Respondi que sim e fui buscar minha bicicleta, pois já estava atrasado para o almoço.\

Na semana seguinte, encontrei um envelope preso ao encosto do banco. Meu nome estava escrito na frente, acompanhado de um pequeno coração azul. Dentro havia a fotografia que tínhamos tirado e uma mensagem no verso: “Para quem encontrou primeiro e decidiu não ficar.”

Guardei a fotografia no bolso e sentei-me por alguns instantes. Na imagem, a moça segurava sua caixinha de música, a mãe sorria ao lado dela e eu aparecia entre as duas, com um pedaço da fita amarela ainda preso ao pulso. Achei engraçado não ter percebido aquilo na hora. Depois coloquei a fotografia de volta no envelope e fui buscar minha bicicleta. Antes de sair, olhei mais uma vez para o banco. Estava vazio, mas resolvi conferir se não havia nenhuma etiqueta escondida.

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