O que o Silêncio escreveu em mim

Contos | 2026/1 Antologia Quando a palavra sente | Amanda Mazzei
Publicado em 25 de Janeiro de 2026 ás 20h 45min

Entrei no Templo Zu Lai caminhando devagar, como quem aprende a não interromper o próprio sentir. Meus pés tocaram o chão com cuidado, e naquele gesto simples já havia uma escolha: não passar apressada por mim mesma. O ar era outro. Não mais pesado de ruídos, mas carregado de presença.
Caminhei.
E enquanto caminhava, algo em mim se organizava.
Observei a arquitetura erguida com intenção. Cada linha parecia sustentar mais do que matéria sustentava valores. Toquei o corrimão frio, senti a textura da pedra, acompanhei com os olhos o vermelho profundo das colunas. As palavras não vinham ainda. Elas se acumulavam em silêncio, como quem espera maturar.
Respirei fundo.
O sino soou.
Não escrevi.
Senti.
Sentei-me por alguns minutos. Minhas mãos repousavam no colo, e o corpo, finalmente, não pedia pressa. Os pensamentos diminuíram o volume. O silêncio não me esvaziou  ele me preencheu. Percebi que há palavras que só nascem quando o corpo concorda com a pausa.
Levantei-me e segui entre os jardins. As folhas se moviam com o vento, indiferentes à minha presença. E naquela indiferença havia ensinamento: existir sem exigir. Caminhei devagar, deixando que o verde me atravessasse. Cada passo escrevia algo invisível dentro de mim.
Minhas filhas caminhavam próximas. Observavam. Não perguntavam. Aprendiam. Aprendiam o tempo, o respeito, o modo de ocupar um espaço sem invadi-lo. Vi nelas o reflexo do que eu mesma reaprendia: estar inteira é um gesto silencioso.
Minha família seguia comigo.
Não falávamos muito. E não era falta  era acordo. Um entendimento mudo de que sentir junto também é uma forma de linguagem. Olhares, passos ajustados, pausas compartilhadas. Estávamos escrevendo uma memória sem palavras.
Em determinado momento, parei.
Ali, senti a palavra nascer.
Não veio como frase pronta, nem como ideia organizada. Veio como sensação. Como um alinhamento interno. Entendi que escrever, às vezes, é apenas permitir que o vivido encontre forma. Que o detalhe o som distante, o cheiro do incenso, a luz tocando o chão se torne verbo.
Saí do Templo Zu Lai diferente.
Não transformada por algo grandioso, mas reorganizada pelo essencial. Levei comigo menos peso e mais presença. As palavras vieram depois, em casa, no silêncio que permaneceu.
Porque algumas experiências não pedem explicação.
Pedem escuta.
Pedem corpo.
Pedem tempo.
E o que foi escrito ali não está apenas neste conto.
Está no modo como caminho agora.
No cuidado com o instante.
Na certeza de que o silêncio também escreve  quando a gente se permite sentir.

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