O reencontro na varanda

A varanda da casa de Helena guardava o cheiro de café fresco e o som distante da rua. Era ali que, anos atrás, ela e Clara passavam tardes inteiras, falando de sonhos e medos, como se o mundo coubesse naquele espaço pequeno.

Clara chegou carregando uma ansiedade silenciosa. O portão rangia como se também lembrasse do tempo passado. Helena já estava na varanda, sentada em uma cadeira de balanço, olhando para o horizonte como quem espera e teme ao mesmo tempo.

— Você veio — disse Helena, com um sorriso que misturava surpresa e alívio.
— Eu vim — respondeu Clara, sentando-se ao lado, como se ocupasse novamente um lugar que nunca deixou de ser seu.

O silêncio inicial foi pesado, mas não desconfortável. Era o silêncio de quem carrega histórias partidas, mas ainda reconhece a inteireza no olhar da outra. Clara falou das ausências que a vida lhe impôs, das perdas que a deixaram em pedaços. Helena contou das batalhas que venceu, mas que também a marcaram.

Entre uma xícara de café e uma lembrança compartilhada, as duas descobriram que, apesar das rachaduras, a amizade permanecia inteira. A varanda, testemunha de tantas conversas antigas, parecia sorrir com elas.

— Talvez nunca voltemos a ser como antes — disse Clara, olhando para o céu que escurecia.
— Mas ainda somos — respondeu Helena. — De um jeito diferente, ainda somos.

E naquela varanda, entre o cheiro de café e o som da noite que chegava, elas entenderam que algumas coisas, mesmo partidas, resistem ao tempo e permanecem inteiras.

Silvia Santos

Livro: Metade Inteira, Metade Partida: Contos, crônicas, cartas, poemas e histórias de quem vive em pedaços e plenitudes

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