O retrato esquecido

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 26 de Maio de 2026 ás 19h 57min

O Retrato Esquecido

 

Na parede antiga e gasta da minha alma,

pende um retrato quase desbotado pelo tempo,

quase apagado pela poeira dos anos…

É a imagem de alguém que, hoje, já não conheço,

e ainda assim, sei com certeza absoluta:

foi parte essencial da minha própria história.

 

Nunca me foi dado conhecer os seus amores,

nem as alegrias que um dia o fizeram sorrir,

mas uma verdade me aperta o peito:

sei que, em alguma estação da sua vida,

ele derramou chuvas e tempestades de lágrimas…

 

Carregou, pesadas no coração,

as mágoas eternas de um amor distante,

de um sentimento que nunca encontrou resposta,

nunca teve abrigo.

Foi ferido, golpeado e magoado, vezes sem conta,

e teve que aprender a dolorosa lição de calar-se,

de engolir o grito e a razão,

mesmo quando toda a verdade e o direito

estavam claramente ao seu lado…

 

O rosto que ali vejo é profundamente triste.

Traça nos traços uma marca indelével de sombra,

uma névoa densa e escura,

formada de todas as longas noites

em que a dor não o deixou dormir nem descansar…

 

Sei também que navegou por mares revoltos e perigosos,

enfrentou marés de amargura e desespero,

e por pouco, por muito pouco, não naufragou para sempre…

Até que, por fim, deixou ficar para trás,

perdidas na distância, as vãs ilusões

e as falsas esperanças desta vida terrena.

 

Eu não sei, ó meu Deus, quem é ele…

Que nome tinha, ou que voz tinha…

Mas o meu coração palpita ao olhá-lo,

pois sei, com uma certeza que vem da alma,

que foi alguém muito importante do meu passado…

Talvez quem eu já fui,

e que, para sobreviver, tive que deixar morrer.

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