O Rosto Por Trás Daquela Nota

Ensaios | | Luciana Kelm | escritora
Publicado em 21 de Abril de 2026 ás 03h 47min

Hoje, 21 de abril, o mundo marca os 10 anos da partida de Prince. Para muitos, é apenas uma data de saudade de um gênio, para mim, é o fechamento de um ciclo que começou quando eu tinha apenas 4 anos. No meu ensaio anterior, "A Pequena Purple Rain", compartilhei como aquela nota de guitarra me cortava e me assustava.

Hoje, diante do silêncio que a morte dele deixou e da maturidade que o tempo me trouxe, entrego a segunda parte dessa história. É hora de dar nome ao rosto que se escondia atrás daquela nota e, finalmente, me permitir molhar na chuva roxa, sem medo e sem precisar de abrigo.

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Eu levei décadas para entender que o roxo não era uma cor. Era um aviso.

No meu ensaio anterior, "A Pequena Purple Rain", eu disse que aquela nota me cortava aos 4 anos. Eu disse que tinha medo de sumir dentro da música. Mas hoje, o susto foi um soco no estômago, eu assistia ao filme Purple Rain e, pela primeira vez, eu não vi o gênio.

Eu vi você.

Foi um relance, a semelhança do traço, o jeito de olhar que sustenta o silêncio. No exato momento em que a imagem na tela se fundiu à sua lembrança, meu corpo inteiro arrepiou. Senti um gelo súbito percorrer a espinha diante da TV. De repente, a imagem do homem que ocupou o centro da minha vida se materializou na nota que me persegue desde criança.

Como pode eu, aos 4 anos, já estar sentindo o que eu viveria com você décadas depois? Parece coisa do destino, um pacto de sangue que a minha pele assinou no escuro.

"Honey, I know, I know times are changing..."

Em 2013, a gente se partiu. O chão sumiu, exatamente como a música avisou que aconteceria. Mas a nota continuou vibrando. Agora eu entendo: por muito tempo, eu não estava ouvindo o Prince, eu estava mantendo o seu fantasma vivo em mim. Usei a imagem do ídolo como um escudo para não encarar o tamanho do que eu sentia por você.

Mas o tempo é um mestre implacável. Ele nos ensina que a gente deixa de gostar daquilo que só dói. A gente cansa de alimentar um sentimento que não tem casa para morar e de sustentar uma saudade que não é mútua.

Toda vez que você me vê, você pede o meu abraço. Eu sentia esse peso, essa sua necessidade de se reencontrar no meu afeto, mas hoje percebo que esse pedido não é sobre nós é sobre o seu ego. Você não quer a minha entrega, você quer a segurança de saber que eu ainda estou disponível.

E eu cansei de ser o abrigo de quem não tem coragem de ficar.

Sim, os tempos mudaram. Eu mudei.

O roxo que me habita não é mais um mistério, nem um convite. Ele é o meu território. Eu não quero mais o palco ou o ídolo, e muito menos o papel de quem cura feridas alheias enquanto as minhas continuam abertas. A nota que me cortava hoje finalmente silencia.

Eu nunca estive perdida na chuva, eu estava apenas aprendendo a fechar a porta. Deixo para trás a nota, o fantasma e esse abraço que só me consome. O meu lugar no mundo agora é onde a minha voz é ouvida, e não onde o meu silêncio é usado.

Eu finalmente estou em casa.

E, desta vez, a porta está trancada por dentro.

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