O segredo da flor de lótus

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 26 de Agosto de 2026 ás 10h 51min

O Segredo da Flor de Lótus
Rosy Neves
 
Todas as noites,
quando a lua derramava prata
sobre as águas antigas do grande rio,
ela vinha banhar-se em silêncio.
 
Era uma flor de lótus,
mas não era como as outras.
 
Trazia nos olhos das pétalas
um segredo que ninguém conhecia,
uma tristeza antiga,
dessas que nascem antes mesmo
de existir o primeiro adeus.
 
À margem do rio,
ela mergulhava lentamente,
como quem procurava nas águas
o rosto de alguém perdido no tempo.
 
E o rio sabia.
 
Ah, o rio sabia…
 
Guardava em suas correntes
o nome que ela jamais pronunciava,
o amor que nunca contou,
a promessa que a lua
jurou não revelar.
 
Até que, numa noite,
o céu ficou estranhamente escuro.
 
A lua parou sobre as águas,
as estrelas perderam o brilho,
e um vento frio atravessou os salgueiros.
 
A flor entrou no rio.
 
Uma vez…
 
Duas vezes…
 
E, quando a lua tocou sua última pétala,
ela simplesmente desapareceu.
 
Ninguém a viu partir.
 
Ninguém ouviu seu último suspiro.
 
Somente o rio continuou correndo,
carregando entre suas águas
um segredo que parecia pesado demais
para o próprio tempo.
 
Depois daquela noite,
nunca mais se ouviu falar dela.
 
Os pescadores deixaram de cantar
quando passavam por aquele lugar.
 
As crianças foram proibidas
de se aproximar do rio depois do crepúsculo.
 
E as mulheres mais velhas diziam:
 
— Não chamem pelo nome da flor…
há nomes que despertam os mortos.
 
Mas esta noite…
 
Esta noite o rio voltou a cantar.
 
A lua está cheia.
 
As águas estão imóveis.
 
E, sobre a margem esquecida,
há uma única flor de lótus
banhada pelo luar.
 
Ela não estava ali ontem.
 
Suas pétalas tremem.
 
E dentro delas
há uma lágrima.
 
Uma lágrima humana.
 
Então o vento sussurra
entre as árvores antigas:
 
— Ela voltou.
 
E, pela primeira vez em tantos anos,
alguém ouviu uma voz vindo do rio:
 
“O segredo nunca foi a minha partida…
foi o amor que me trouxe de volta.”
 
E a lua,
como uma velha testemunha,
escondeu o rosto entre as nuvens.
 
Porque há amores tão trágicos
que nem a morte consegue sepultá-los.

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