“O ser humano e o mundo”

Infanto-Juvenil | Conto | Marlete Dacroce
Publicado em 22 de Abril de 2026 ás 16h 46min

“O ser humano e o mundo”

Uma mulher que carregava três mundos dentro de si: o de mãe, o de professora e o de cientista. Entre fórmulas, teorias e preocupações com os rumos da humanidade, ela passava longas horas em seu laboratório, determinada a encontrar respostas que pudessem melhorar o mundo.

Certo dia, sua filha TDAH de apenas sete anos atravessou a porta do seu santuário com a leveza de quem quisesse ajudar. Curiosa, insistente, cheia de vida. A mãe, tomada pela concentração e um leve nervosismo, tentou convencê-la a sair e brincar em outro lugar sem sucesso.

Percebendo que não venceria aquela pequena determinação, a cientista buscou uma solução rápida. Folheando uma revista, encontrou um mapa do mundo. Seus olhos brilharam. Com uma tesoura, recortou o mapa em vários pedaços, pegou um rolo de fita adesiva e entregou à filha dizendo:

— Você gosta de quebra-cabeças, não é mesmo? Então vou te dar o mundo para consertar. Aqui está o mundo, todo quebrado. Veja se consegue consertá-lo direitinho… mas faça tudo sozinha.

A mãe sorriu por dentro, certa de que teria dias inteiros de silêncio para trabalhar.

Mas o tempo não se comportou como ela esperava. Poucas horas depois, uma voz doce ecoou pelo laboratório:

— Mãe! Mãe! Já fiz todinho!

Sem acreditar, a cientista ergueu os olhos lentamente. Era impossível. Uma criança daquela idade jamais conseguiria montar um mapa que nunca tinha visto. Ainda assim, levantou-se, preparada para encontrar um trabalho incompleto, torto, infantil. Mas ao olhar… Parou. O mapa estava perfeito. Cada pedaço no seu devido lugar. Cada continente, cada linha, exatamente como deveria ser.

Confusa, perguntou:

— Minha filha… você nem sabia como era o mundo. Como conseguiu?

A menina sorriu com a simplicidade de quem não vê limites onde os adultos veem.

— Eu não sabia como era o mundo. Mas quando você tirou o papel da revista, eu vi que do outro lado tinha a figura de uma pessoa. No começo, tentei montar o mundo… mas como não consegui. Foi aí que eu me lembrei do ser humano. Então virei os pedaços e comecei a consertar a pessoa que já conhecia. Quando terminei, virei de novo… e o mundo estava consertado.

A mãe ficou em silêncio.

Pela primeira vez em muito tempo, não havia teoria, cálculo ou experimento que explicasse melhor. A resposta estava ali, colada com fita adesiva e sabedoria.

Moral da história:
Quando consertamos o ser humano, o mundo se ajeita sozinho.

 

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