O Sopro de Deus e o Amargo Despertar: A Noite que me Fez Mãe Pâncreas

Ensaios | | Luciana Kelm
Publicado em 20 de Março de 2026 ás 05h 23min

Eram 22h daquela quarta-feira, 18 de setembro de 2019. O ritual do sono já se desenhava na quietude da casa, mas o destino ou a Providência tinha outros planos, escritos em letras invisíveis e urgentes. 

Matheus, aos 10 anos, atravessou o corredor com uma sede que parecia não pertencer a este mundo. Depois de dois litros de água, ele me olhou e disse: "Sinto algo estranho na garganta".

Naquele instante, o silêncio da casa não foi apenas interrompido, foi rasgado.

Uma voz, que hoje entendo não ser humana, ecoou na minha mente com uma autoridade absoluta. A voz de Deus, manifestada no mais puro instinto, sussurrou o ultimato: "Leva ele agora para o hospital, porque se ele dormir, não irá acordar".

O desespero não me paralisou; ele se transformou em obediência cega. Peguei meu filho e corri contra o relógio que eu mal sabia que estava parando. No hospital, o veredito veio rápido como um golpe: Diabetes Mellitus Tipo 1.

O diagnóstico estava envolto em uma palavra técnica e assustadora: Cetoacidose.

O destino: internação imediata na CTI.

Ali, entre bips de monitores e o cheiro de antisséptico, o tempo se dobrou. O Matheus de dez anos tornava-se, ali mesmo, um soldado de uma guerra silenciosa. E eu, Luciana, renascia sob o título de "mãe pâncreas", batizada pelas lágrimas daquela madrugada.

Muitos chamam a jornada do diabetes de um "mundo doce". Mas, como escritora, aprendi que a metáfora é mais profunda: é um mundo doce onde o sabor é amargo. 

É a doçura da vida preservada a cada picada, mas com o amargor da vigília eterna, dos cálculos matemáticos para cada refeição e da angústia que mora no visor do glicosímetro.

Hoje, Matheus tem 16 anos. Seis anos se passaram desde que aquela voz divina me impediu de abraçar o luto. O susto virou rotina, a dor virou cuidado e a escrita tornou-se o altar onde deposito essa jornada.

 O diagnóstico não foi um ponto final; foi o parágrafo que mudou o ritmo de toda a nossa obra.

Este relato é apenas um fragmento da história maior que venho registrando.

Atualmente, dedico meus dias à escrita do meu livro "Meu Doce Matheus: Relatos de uma Mãe Pâncreas". Nele, narro as nuances dessa convivência forçada com a glicose, as vitórias invisíveis e o cotidiano nesse universo onde o açúcar é, simultaneamente, vilão e necessidade.

Ainda vivemos nesse mundo de contrastes, mas enquanto eu tiver voz e tinta continuarei narrando a vitória de cada amanhecer.

Livro: Meu Doce Matheus - relatos de uma mãe pâncreas "Um mundo doce onde o sabor é amargo

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