A reunião estava marcada para o dia seguinte. A circular determinada pelo gerente, senhor Hamilton Cardoso, e revisada pelo subgerente Roberto Simplício fora distribuída, anunciando a data e o horário, nada usuais: duas horas antes da abertura da agência bancária, “dada a essencialidade do assunto”, como foi dito. Todos os 32 funcionários tomaram ciência no verso do documento oficial, encaminhado pela assistente de gerência, Rita Moura. A tensão aflorava nos rostos, revelando o abalo espiritual, tormentoso e silencioso, promovido pela súbita mudança de atmosfera.

A notícia repentina, dando conta de que a informatização do sistema bancário era urgente e necessária, prenunciada pela instalação de um computador no interior da unidade, surpreendera a todos e se tornava manifesta, inclusive aos clientes, pelas sobrancelhas franzidas, pelos olhares demorados e pelos dedos batendo na madeira, desde os escriturários e atendentes de balcão até o setor de gerenciamento.

Embora um supervisor pretendesse dirigir a reunião, a fim de enfatizar que possuía informações seguras sobre a garantia dos empregos, nas rodinhas inevitáveis na cozinha, que já parecia murmurar histórias antigas, o que pesava eram as conversas ao pé da máquina de café, os cochichos no corredor, os segredos do banheiro e os desabafos na mesa do bar depois do expediente: “a máquina, em breve, substituiria homens e mulheres”. O medo abalava raízes e balançava, sem rumo, as almas aflitas, como o vento que soprava nas árvores centenárias da Praça da República, instalada defronte à agência bancária.

O tique-taque, tique-taque das máquinas de escrever de Leonardo e Elvis, naquele ritmo firme que atravessava três ou quatro folhas de papel sulfite separadas pelo papel-carbono para obter cópias, gerando relatórios e documentos de toda ordem, e o movimento preciso das mãos somando cheques, contas de água e de energia elétrica, da Gislaine e de outras meninas, tão úteis e indispensáveis no final dos anos 1980, naquele dia perderam o antigo significado. Já não eram tecnologia. Já não representavam status. Convertiam-se, agora, em medo, tensão e na imprevisibilidade de um futuro que ninguém ousava nomear.

Na essência, era assim: somavam-se todos os setores e, conferida a soma com os valores dos caixas, o fechamento era enviado em malotes para a central regional por volta das 18 horas. No dia seguinte, o funcionário Roberval, que fechava a contabilidade, com status de chefia, fazia o balancete da agência bancária. Assim caminhava a vida. E foi por isso que a mudança pareceu representar algo além do contexto humano. Uma atmosfera de tensão e medo.

A mudança foi perturbadora, inclusive, porque a partir daquele dia, instalaram-se diversos terminais, numa época em que as transmissões ainda dependiam do velho e saudoso telefone: tentava-se a ligação; o aparelho chiava, arranhando os ouvidos, lutando para capturar aquele frágil fio de voz metálica que chamavam de conexão e que fazia a linha oscilar.

De repente....um  clique..., e a ligação caía sem aviso, e o processo recomeçava, num ritual que podia se estender por mais de uma hora, enquanto o suor se tornava parte da paisagem e o tempo respirava sobre as mesas dos encarregados Eliseu Cardoso e Wanderlei, o Wandão, e também sobre a mesa do chefe da Área de Serviços, o gerente administrativo, Evaristo Bertolucci, que acendia um cigarro atrás do outro, e recolhia-se ao silêncio enigmático, enquanto a fumaça subia em espiral. Os três eram responsáveis pela transmissão diária do movimento. Muitas vezes eles saíam da agência por volta das 23 horas, sem receber horas extras.

Um pouco mais contida, estava a Soninha, chefe de setor dos caixas e da tesouraria, cumpria o horário estabelecido porque fazia faculdade de Administração; entretanto, entrava mais cedo para abrir a agência e preparar o expediente. Ela era organizada e metódica, mas seus gestos silenciosos mudavam ao passar perto de Wandão; um segredo revelado, inconscientemente, no abrigo do anonimato.

Assim o ano de 1989 se encerrava e, para dissipar aquela tensão maligna que pairava no ar, surgiu, na conversa entre o trio, a ideia de promover uma confraternização diferente, a fim de melhorar o astral da equipe. A proposta, porém, mostrava-se difícil de colocar em prática, pois, embora estivessem sempre juntos em almoços e em pequenas viagens, tendo suas vidas repartidas em ônibus interurbanos e os cinquenta minutos até a cidade vizinha onde moravam, eram, contudo, figuras totalmente distintas.

Eliseu era crente e recém-casado; a mulher, gestante, e ele vivia preocupado em não chegar tarde em casa, mas isso era impossível naquele momento. Cada retorno, para ele, tinha gosto de culpa. Enfim, gostou da sugestão, mas não tinha ideia do que poderia ser feito. Wandão, porém, era pragmático, estudioso, havia terminado Administração; sabia que Soninha era apaixonada por ele, mas evitava relacionamento sério porque pretendia seguir carreira acadêmica. Ele era muito prático para essas questões.

Já Evaristo era uma lenda: sujeito criativo e expressivo, cuja história todos conheciam. A mãe o enviara ainda jovem para um seminário; desde garoto, era politizado e comunista, mas, em dado momento, encantou-se com a vida religiosa e decidiu realmente ser padre. Ocorre que, por sua participação em movimentos de esquerda no final da ditadura, acabou convidado a se retirar, quando, segundo ele, se preparava para celebrar a primeira missa oficial. Temendo delação e prisão política, deixou a igreja com dor no coração, e acabou no banco.

Era comum perguntarem-lhe como poderia ser padre se era comunista e não acreditava no ser superior que rege os destinos. Respondia que bastava que as pessoas acreditassem; seu papel seria usar a Igreja e a Bíblia para dar conforto espiritual e, ao mesmo tempo, aproveitar aquela estrutura para uma verdadeira cruzada contra a fome e pela excelência da cultura e da educação. Era um humanista. Impossível não gostar dele. Wandão e Eliseu não bebiam, mas Evaristo gostava de bons vinhos e fumava bastante.

Certo dia, estavam num restaurante, à hora do almoço, entre o vazio de ideias e o barulho dos talheres sobre a mesa, quando o perfume sedutor de Rita anunciou sua presença. A danada, além de bonita e elegante, falava bem e, já naquele tempo, era dona de si. Diziam que, a cada quinze dias, trocava de parceiros, que ela mesma escolhia. Nas rodas de papo machista, sentenciavam: “A Rita dava pra todo mundo”. Diziam isso morrendo de inveja, com vontade de serem escolhidos por ela.

Segura, como sempre, e em bom tom, ela propôs:

— E se a gente fizer como todo ano? Chácara, churrasco, música; disse, com um sorriso de canto; só que agora com um jogo: “Atletas de Cristo × Atletas do Diabo”. Os de Cristo não podem beber nem fumar. Os do Diabo têm que escolher: ou bebem, ou fumam. Capitães: Eliseu, de Cristo. Evaristo, do Diabo.

Evaristo, tamborilando com os dedos no isqueiro, riu e aceitou de pronto:

— Estou dentro.

E ninguém discordou.

Antes de promover o espetáculo, porém, lembraram-se de um problema administrativo: o tesoureiro Júlio Cesar; moço bom, pacato, sem muita instrução, mas honesto, descuidara-se, e um erro na tesouraria causara prejuízo. Houve reunião, e gestores e encarregados decidiram: ele seria responsabilizado e demitido por justa causa. Assim se resolveria o problema.

Eliseu ficou em silêncio por um tempo. Fez uma oração em pensamento, mas não sabia o que pedir. Pensou na família do rapaz, no filho pequeno, na esposa. Suas mãos tremiam e o suor lhe banhava o rosto. Até que, amparado na fé, tomou coragem:

— Ele é honesto, disse, por fim, e não houve dolo. Sou contra a demissão por justa causa.

Como punição, pediram então que ele próprio redigisse a justificativa à agência central. Ele o fez. A justificativa foi aceita, e o rapaz não foi demitido.

Mais tarde, Júlio Cesar abraçou Eliseu com lágrimas nos olhos.

O jogo ocupou o mês inteiro. Parentes e curiosos fizeram fila; crianças correram pelo gramado da chácara; a churrasqueira tossia fumaça espessa. Evaristo distribuía risos e provocações, Wandão organizava escalações com precisão de planilha, Soninha comandava a tesouraria do churrasco. Rita chegava, e o ambiente se transformava; ela era o sonho de liberdade de todos os desejos reprimidos.

Entretanto, os Atletas de Cristo ganharam de lavada, foi o famoso chocolate, uma diferença de sete gols. O que ninguém sabia era que o escriturário Leonardo, o Léo, crente fervoroso, havia jogado nas categorias de base profissionais e desistira por dificuldades financeiras. O menino acabou com o jogo.

— Filho da puta! É o capeta esse moleque! — exclamou Evaristo, olhando a fumaça do cigarro que se dissipava no ar, ao final da partida.

Veio 1990. E com ele, o caos. Em março, no início do novo governo, vieram as medidas radicais para deter a hiperinflação. O país mordeu os próprios bolsos: bloqueio de depósitos bancários; saldos acima de 50 mil cruzeiros retidos por até dezoito meses. Uma parte mínima para subsistência; o resto, títulos públicos, promessas ao futuro com perda real no caminho.

A agência virou palco de dúvidas e filas. Gente batendo na vidraça, gente chorando no balcão, gente pedindo explicações que ninguém tinha, enquanto o telefone chiava seu fio metálico de paciência. O banco, que tinha mais de mil agências, ficou com trezentas. Daquela unidade, dos trinta e dois, restaram oito ou dez. Amigos e gestores foram desligados como quem apaga luzes de um corredor.

Eliseu foi o primeiro a sair. Entrou com ação para receber as horas que nunca vieram: vinte e duas, vinte e três, noite sim, noite também. Precisava daquele dinheiro para a casa própria. No dia da audiência, o banco apresentou uma testemunha contra ele: Júlio Cesar.

Quando ouviu o nome, Eliseu sentiu a alma sair do corpo. Não conseguia acreditar no que via e ouvia, e lembrou-se de Machado, em “Um apólogo”: “Eu também já fui agulha para muita linha ordinária.” Júlio evitou encarar. A voz veio apertada:

— Me desculpa… se eu não fizesse isso, eu perdia o emprego.

Eliseu respirou, juntou as palavras com a serenidade que vinha de seus ancestrais:

— Faça o que seu coração pede.

Dois anos de desemprego. Estudo às duras penas. Depois, o magistério e a aposentadoria simples, a dignidade intacta.

Daquele tempo, restou uma única amizade: Evaristo, agora dono de uma padaria 24 horas. Todas as manhãs, depois da caminhada, um café, um pão na chapa, e a conversa que sempre voltava ao campo da chácara; àquele dia de sol e fumaça e sete gols.

Foi por Evaristo que soube: Leonardo tornou-se pastor evangélico; Hamilton abriu uma pequena loja de roupas perto do centro; Rita mora em Botucatu, administra uma sorveteria e segue entrando nos lugares como um raio de sol na janela depois da chuva; Wandão fez fortuna, tornou-se dono de uma seguradora em São Paulo; Soninha é escrivã em cartório de notas: caderno impecável até hoje; Júlio Cesar aposentou-se no banco, e na visão de Eliseu, foi o traidor mais bem-sucedido que o inferno produziu.

Quando vamos ficando mais velhos, os hábitos se consolidam, a ponto de todo dia, por volta das 8h30, ainda engolindo o último gole de café com leite, o diálogo ser o mesmo: Eliseu, de maneira pragmática, pede a conta e ouve, automaticamente:

— Um pingado duplo e um pão na chapa. São tantos reais. 

Pega a carteira; o amigo se aproximava e tenta impedir:


— Deixa pra lá, é por conta da casa, pela velha amizade!

Mas, para manter a velha dignidade, Eliseu faz questão de pagar.

E na calçada, como no dia anterior, pensa:

“Como aquele septuagenário proprietário da padaria pode, depois de quase quarenta anos, manter relações tão estreitas com antigos companheiros, lembrando de todos com detalhes e carinho?”

Silencioso, conclui em sussurro:

“Certamente, o que não fora dever foi, de fato, vocação. Um grande padre; talvez o primeiro papa brazuca, se a encruzilhada da vida fosse outra.”

 

Comentários

Na moral, este conto de Gilmaiir Ribeiro me é muito familiar! Não que eu tenha comprometimento com qualquer dos personagens que parecem tão reais, mas porque vivi situação semelhante quando fui supervisor e gerenciei uma agência bancária! Vi tudo isso com meus próprios olhos. Este conto me fez reviver tudo o que vi e tudo o que passei. Foi, sem dúvida uma fase cruel! Tempos horrorosos!

Lorde Égamo | 02/04/2026 ás 17:49
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