Hoje recolho devagar
as flores que deixei abertas em tua espera.
Há despedidas que não fazem ruído,
apenas cansam de permanecer à janela.
O coração aprende, às vezes,
que nem toda ternura encontra morada.
Alguns sentimentos nascem eternos,
mas precisam sobreviver sem chegada.
Por muito tempo conservei acesa
uma luz pequena dentro do peito,
dessas que atravessam tempestades
mesmo quando o céu já não promete.
Agora sigo em silêncio.
Sem pedras lançadas ao passado,
sem perguntas deixadas na porta,
sem insistir contra o destino traçado.
Não houve falta de amor.
Talvez tenha existido amor demais
para caber na medida estreita
dos caminhos reais.
Ainda assim, guardarei contigo
a parte mais bonita do sonho:
os instantes que fizeram da alma
um lugar menos sozinho.
E quando a saudade tocar meu nome
nas horas lentas da madrugada,
farei do carinho uma lembrança serena,
dessas que não pedem mais nada.
Porque há amores tão profundos
que precisam partir com delicadeza,
para não ferirem aquilo
que um dia chamaram de beleza.